04 julho 2006
Não te faço rir,
eu sei, há muito tempo que perdi a expressão alargada do meu rosto, e hoje limito-me a viver dos poucos traços que ainda guardo. Pequenos esgares que nem sequer são de alegria, olhos em arco, as faces pálidas caídas, a solidão que em frente ao espelho me incomoda. E, no entanto, sou a mesma. Sempre a mesma. Procuro-me em outras, mas não passa de ilusão. Sou sempre a mesma. A mesma pele que me serve serve às outras. Nenhuma de nós é plasma, temos nome, o mesmo nome para todas. Da substância, porém, não sei dizer. Não somos todas da mesma.
Desde que vi
a cara dela numa revista duvidosa que a sua escrita deixou de ter aquele impacto. Hoje, considero-a até banal, sem importância, uma escrita construída de rajada, mas nem por isso genuína.
Há muito tempo que não mostro a minha cara
duvidosa?
na revista. E, no entanto, a minha escrita já não tem aquele impacto. Considero-a até banal, sem importância, construída sobre a ânsia de dizer, e afinal amordaçada.
Há muito tempo que não mostro a minha cara
duvidosa?
na revista. E, no entanto, a minha escrita já não tem aquele impacto. Considero-a até banal, sem importância, construída sobre a ânsia de dizer, e afinal amordaçada.
É claro
que ainda posso permanecer. Mudar de ideias, fazer-te rir. Boiar outra vez no néon, outra vez ser de plasma resguardando a pele em corpo seguro, estatelar-me no écran ao comprido, deitar-me, dormir, escrever sem pensar, inventar personagens que depois posso enfiar outra vez num hospital de malucos, convidar o Miguel Bombarda para beber um copo de letras comigo, sair com o Gonçalo, telefonar à Joana. Passo depressas pelas estações, mas posso fazê-las durar nos meus dedos para que se derramem nas teclas as vezes que forem precisas. Ou, simplesmente, as que me apetecer. E a ti? Depois disto tudo, continua a apetecer-te a leveza e o riso? Se quiseres, posso escrever.
Qualquer coisa
mas leve. Das que te fazem rir, foi o que disseste? Sabes, não sei se ainda sei escrever coisas dessas, ou sequer se me apetece escrever coisas dessas, coisas que te façam rir, que te deixem leve ou com vontade de ler-me. Passou tanto tempo, sobretudo mudou tanta coisa, e tu sabes como sou rápida a atravessar as estações, como passo a correr de umas para as outras, como me canso sempre que me demoro mais do que a conta, aborrecem-me as repetições, as reposições, o resgatar das palavras que já foram escritas. Além disso, cada vez me convenço mais de que os blogs
estás muito enganada, isto não é um blog!
cada vez me convenço mais de que os blogs mais não são do que espelhos onde queremos que os outros nos vejam maiores do que somos, onde espetamos com as nossas vaidades e onde pômos o ego a boiar em néon para que os outros nos venham «espiar» e, idealmente, admirar, bajular, encher-nos as caixas de comentários com senso comum e considerações miseráveis. Pois foi, é verdade, também eu caí nessa asneira, também eu cedi à tentação de pôr a escrita a boiar no néon, tipo isca, tipo deixa lá ver quem é que aparece e o que é que diz, pode ser que haja para aí alguém interessante, alguém para quem as palavras façam mais do que só o sentido que lhes quero dar, uma espécie de eco, ou de retorno, talvez até fosse mais o retorno aquilo que esperava, mas que disparate, como se as presenças do lado de lá me garantissem alguma coisa, como se fosse preciso andar a medir o impacto das minhas metáforas pela bitola dos outros.
Sim, divertia-me, durante uns meses divertia-me à brava, sobretudo à custa de uma ou outra ressabiada, isso foi giro, medir até que ponto o néon se presta ao verter de azedumes, de invejas, de raivas, mas tudo isso, ultimamente, foi ficando para trás. A minha vidinha, o escanzelado de merda, os comentários anónimos, o palhaço singelo, o plasma e a pele, a minha mãe... Não digo que estejam mortos e enterrados, mas olho para eles e vejo-os tão pálidos, os contornos do que quis que fossem esvaídos, nenhuma coisa que me pareça importante ir recuperar. Desculpa, por isso, se não te faço rir, se são de vidro - e de outras substâncias anónimas - as palavras que tenho guardadas dentro de mim. E que já não partilho.
estás muito enganada, isto não é um blog!
cada vez me convenço mais de que os blogs mais não são do que espelhos onde queremos que os outros nos vejam maiores do que somos, onde espetamos com as nossas vaidades e onde pômos o ego a boiar em néon para que os outros nos venham «espiar» e, idealmente, admirar, bajular, encher-nos as caixas de comentários com senso comum e considerações miseráveis. Pois foi, é verdade, também eu caí nessa asneira, também eu cedi à tentação de pôr a escrita a boiar no néon, tipo isca, tipo deixa lá ver quem é que aparece e o que é que diz, pode ser que haja para aí alguém interessante, alguém para quem as palavras façam mais do que só o sentido que lhes quero dar, uma espécie de eco, ou de retorno, talvez até fosse mais o retorno aquilo que esperava, mas que disparate, como se as presenças do lado de lá me garantissem alguma coisa, como se fosse preciso andar a medir o impacto das minhas metáforas pela bitola dos outros.
Sim, divertia-me, durante uns meses divertia-me à brava, sobretudo à custa de uma ou outra ressabiada, isso foi giro, medir até que ponto o néon se presta ao verter de azedumes, de invejas, de raivas, mas tudo isso, ultimamente, foi ficando para trás. A minha vidinha, o escanzelado de merda, os comentários anónimos, o palhaço singelo, o plasma e a pele, a minha mãe... Não digo que estejam mortos e enterrados, mas olho para eles e vejo-os tão pálidos, os contornos do que quis que fossem esvaídos, nenhuma coisa que me pareça importante ir recuperar. Desculpa, por isso, se não te faço rir, se são de vidro - e de outras substâncias anónimas - as palavras que tenho guardadas dentro de mim. E que já não partilho.
Escreve aí qualquer coisa
mas leve, do género daquelas que costumavas escrever quando este blog
isto não é um blog!
nos fazia rir.
isto não é um blog!
nos fazia rir.
04 maio 2006
03 maio 2006
Fomos ganhando a distância
dos corpos primeiro, cada um a cada dia mais longe do outro, abrindo os braços, as mãos e os olhos na direcção oposta do outro, procurando o lugar onde o outro não estava, onde não podia chegar ou voltar a caber, onde o tamanho de dois se tornava risível e cada vez mais desproporcional ao amor. Uma vez estabelecidos os territórios da pele e as respectivas fronteiras, alargámos o intervalo entre as almas até ao abismo que vês. Agora, para me tocares ou, simplesmente, para me quereres outra vez, tens de atirar-te e cair. Provavelmente, morrer.
A seguir
morro-te eu. Devagarinho, prometo. Quando acabar, guardo-te perto dos búzios - a não ser que me digas que preferes os lírios de cera, as orquídeas, as coroas de cemitério ou outro disparate qualquer das mortes a sério.
Insiste
que o tempo da colheita há-de chegar finalmente. Repara como o verão se aproxima, sente-lhe a arte, se fores capaz toma-lhe o pulso, segura-o. Pouco importa se são frutos ou almas o que vais trazer do pomar, se é voz se silêncio o que te nasce no peito, doendo. Sobretudo, não contes as ilusões que te distraem desde o outono passado. Enquanto não davas por isso, as estações amadureceram -te e envelheceste . Não é motivo para alarme, não são as rugas que te vão tolher os dedos para já, mas estamos em Maio e urge usá-los antes que caiam das árvores - ou que apodreças.
A voz dele
não devoluta, sem ser rouca e sem estar presa, nenhum arquétipo de som desabando atrás do vento, nenhum pranto de vertigem, nenhum grito de vazante, nenhum halo de precipício, nenhum trago de maré, nenhum espasmo de veneno. A voz dele no timbre manso e eterno das estações que o amor devolve em dobro aos heróis das grandes causas, a viola recuperada, o piano recomposto, os olhos verdes pela frincha entreaberta das palavras que ficaram por reter e as flores já recuperadas, afinal não tinham sede, não chegaram a murchar, eram brancas, eram doces e a voz dele
até que a morte nos separe
repetindo a promessa e o amor para além do tempo e da tragédia.
até que a morte nos separe
repetindo a promessa e o amor para além do tempo e da tragédia.
Que diferença faz
afinal? Que sentido? Aberta ou fechada, a minha janela dá para um imenso vazio, nenhuma paisagem à frente dos olhos que valha a pena reter, considerar, repetir.
28 abril 2006
Era muito mais divertido
quando ficava à janela a ver-te passar, ou mesmo quando ficava do lado de dentro, ao teu lado, e te seguia à medida que ias jorrando dos dedos os teus disparates, alguns faziam-me rir, outros nem tanto, mas sempre era melhor do que agora, eu ao teu lado e tu quieta, muito mais quieta, muito mais triste, eu do lado de dentro das tuas mãos e a vê-las tremer, desistir. Ou então à janela. Eu amparando o teu corpo dobrado, as portadas fechadas, a rua onde já não passa ninguém, talvez me morras nos braços um destes dias e tenha de ir enterrar-te junto dos pássaros, lembras-te? Talvez um destes dias te agarre nas mãos e repare que já não sabem voar. Poderei nessa altura passar outra vez para o teu lado de dentro e de novo abrir a janela, quem sabe sorrir, ver passar as pessoas, as letras, um rumor de palavras calcorreando os passeios e a memória da tua voz seguindo-lhe o rasto, ou não fosse a morte a metáfora perfeita dos dias que ainda nos faltam cumprir.
Como se recomeçar
fosse voltar ao princípio e não é. Como se a escrita fosse tangível daqui e eu debruçada a vê-la cair sem poder fazer nada ou mexer-me. Eu entre a inércia e o espanto a medir o abismo que de há uns anos para cá me separou das palavras
para sempre
entre o tédio e o pranto a ajuizar a distância da pele à metáfora e é grande, é imensa, é brutal e estou tão cansada. Eu a ser empurrada e a reparar que é por isso, é só por isso, que me mantenho em andamento embora não saiba lá muito bem para onde vou nem porquê e uma pilha de livros à espera que os meus dedos se excedam e escrevam, enfim, o que lhes peço. Mas nunca escrevem, nunca se excedem, há anos que os tenho parados nas mãos, já quase não fazem parte de nada, os meus dedos, e às vezes ficam dormentes. Como se recomeçar fosse, de alguma forma, o sol de vermelho no limbo, o horizonte e a luz e o mundo contagiados de sangue e não é, nunca foi. Não é suposto doer e parece que é disso que não me convenço, não é suposto doer. Não é o sangue que vejo nascer todos os dias da minha janela, pois não.
para sempre
entre o tédio e o pranto a ajuizar a distância da pele à metáfora e é grande, é imensa, é brutal e estou tão cansada. Eu a ser empurrada e a reparar que é por isso, é só por isso, que me mantenho em andamento embora não saiba lá muito bem para onde vou nem porquê e uma pilha de livros à espera que os meus dedos se excedam e escrevam, enfim, o que lhes peço. Mas nunca escrevem, nunca se excedem, há anos que os tenho parados nas mãos, já quase não fazem parte de nada, os meus dedos, e às vezes ficam dormentes. Como se recomeçar fosse, de alguma forma, o sol de vermelho no limbo, o horizonte e a luz e o mundo contagiados de sangue e não é, nunca foi. Não é suposto doer e parece que é disso que não me convenço, não é suposto doer. Não é o sangue que vejo nascer todos os dias da minha janela, pois não.
Sophia
tantos meses depois e ainda me viro quando alguém diz o meu nome
Sophia?
ou quando o escrevo
Sophia
como se fosse de facto o meu nome, e não é.
Sophia?
ou quando o escrevo
Sophia
como se fosse de facto o meu nome, e não é.
Num dia como outro qualquer
de calor, mas muitos anos depois
não exageres, foram só alguns meses
meses, ok, num dia como outro qualquer de calor mas muitos meses depois, quantos não sei, não os conto, prefiro não contar o tempo que não posso reter, revejo-me ao espelho. É o mesmo rectângulo, é o mesmo néon, o ecrã tal e qual como o deixei há meses atrás, pálido, o mesmo template,
ia dizer : a mesma merda de sempre
mas ainda não decidi se me quero ver tal e qual como sou
a mesma de sempre
ou se em vez disso me invento,
outra vez
se me mostro ou me escondo atrás da pele que não tenho,
plasma, não era
se me deixo levar pelo chumbo das letras, pelo barulho dos tiros a sair-me a custo dos dedos
das teclas
pelo barulho das teclas a sair-me às golfadas do peito ou se, em vez disso, me deito quieta e à sombra à hora da sesta ou, ainda, se sonho.
Por enquanto
e é tudo
e é muito, sei que num dia como outro qualquer de calor me acendo à espera que a escrita me traga o alento que não encontro na vida e é tudo
e é muito
até porque já se passou muito tempo e há coisas de que já não me lembro, coisas que preferia esquecer, muitas coisas das quais ando desesperadamente à procura para depois lhes poder chamar nomes, acho que deve ser isso.
não exageres, foram só alguns meses
meses, ok, num dia como outro qualquer de calor mas muitos meses depois, quantos não sei, não os conto, prefiro não contar o tempo que não posso reter, revejo-me ao espelho. É o mesmo rectângulo, é o mesmo néon, o ecrã tal e qual como o deixei há meses atrás, pálido, o mesmo template,
ia dizer : a mesma merda de sempre
mas ainda não decidi se me quero ver tal e qual como sou
a mesma de sempre
ou se em vez disso me invento,
outra vez
se me mostro ou me escondo atrás da pele que não tenho,
plasma, não era
se me deixo levar pelo chumbo das letras, pelo barulho dos tiros a sair-me a custo dos dedos
das teclas
pelo barulho das teclas a sair-me às golfadas do peito ou se, em vez disso, me deito quieta e à sombra à hora da sesta ou, ainda, se sonho.
Por enquanto
e é tudo
e é muito, sei que num dia como outro qualquer de calor me acendo à espera que a escrita me traga o alento que não encontro na vida e é tudo
e é muito
até porque já se passou muito tempo e há coisas de que já não me lembro, coisas que preferia esquecer, muitas coisas das quais ando desesperadamente à procura para depois lhes poder chamar nomes, acho que deve ser isso.
25 setembro 2005
As minhas tias
que se ainda fossem vivas e soubessem o que fiz com a irmã me perdoavam, acho eu, compreendiam, eu, num acesso de maldade aquela tarde a entrar pelo jardim como um veneno e a exilá-la brutalmente do amor, a despejá-la da vivenda de Benfica ao ficar subitamente saturada dos achaques, da velhice, dos enjoos que lhe subiam à garganta a ver montras em Algés e, de repente, estatelada no passeio sem mais nem menos, domingo não, domingo sim e era um estorvo de extra-sístoles na missa do meio dia, um chazinho, uma canseira escada abaixo e escada acima para velá-la à cabeceira, o pulso frágil mas teimoso, bate-pára, bate-pára, bate-bate
que parasse de uma vez e me deixasse!
eu cansada de repente do transtorno e do tempo que me escapa a pensá-la rodeada por quilómetros de capim em vez de relva, a azedar como os limões que apodrecem pelo chão, as asas turvas dos pardais em voos caducos sobre o rio, anjos de mármore pelo jardim ao deus dará de asas partidas, andorinhas esbaforidas, o lilás abrasador das buganvílias, as hortênsias moribundas rente ao muro, sorrisos murchos, dentaduras, palidez, rugas de cera derretendo ao abandono, um rectângulo de bafio, duas figueiras depenadas, ela magríssima acenando-me, a promessa
adeusinho qualquer dia venho vê-la
e a minha tia a saber perfeitamente que não vinha, nunca mais a visitava, ela que se acomodasse para morrer ou o que quisesse e que me deixasse em paz, que declinasse a meio da tarde nas cadeiras, que cedesse às extra-sístoles e ao reumático
chás de tília escada acima, escada abaixo
que esquecesse a cama larga de solteira e a luz a entrar-lhe pelo quarto de manhã e a trocasse pela enxerga de bafio e pela penumbra, o pau-santo pelo caruncho da madeira, que trocasse a solidão das noites longas de Benfica por fantasmas a rasar-lhe a cabeceira , pelo menos sempre tinha companhia, alguém que podia acudir-lhe se caísse ou chamar-lhe uma ambulância se morresse, um sobrinho se eu deixasse, já agora um tiro no peito e acabava-se com isto, o gatilho encostado ao coração, era o segundo, não custava mesmo nada e ela ainda num aceno, encostada ao portãozinho
e pareceu-me que sorria, percebia julgo eu, perdoava-me este excesso de palavras, o exílio de Benfica, o acesso de maldade, o ataque de rancor se calhar nem era isso, e então desaparecia de repente numa névoa de poeira luminosa mas devia ser a curva, só podia ser a curva, era a curva de certeza, a rua estreita alargando-se outra vez e o lar de velhos finalmente para trás, a minha tia até que enfim sem dar trabalho confinada ao patiozinho de esqueletos, ao paraíso enganador mas repousante apesar da decadência, até que enfim sem me partir o coração de a ver sozinha sem sobrinhos e sem gatos sem irmãs e sem frasquinhos de compota sem agulhas de crochet e sem bolachas no armário sem almoços ao domingo, a gaveta dos lençóis com cheiro a azedo, o periquito estrangulado na gaiola, até que enfim sem quilómetros de jardim erguendo um cerco à sua volta, outra boneca de poeira que voltaríamos a pôr noutra caixa sem lacinhos e não queria, ali ao menos poderia ficar viva até nos esquecermos dela, não estaríamos presentes para assistir à derrocada de extra-sístoles a calar-lhe o coração um dia a sério
bate-pára bate-pára pára-pára
um cortejo de sobrinhos escada acima, o médico, a malinha, a morte e a certidão pondo fim à expectativa de que fosse só um susto, um sustozinho apenas isso, não teríamos de olhar a magreza do seu corpo já sem fôlego e o pulso sem sinal, paradíssimo, de a velar a noite inteira e ela inerte, as rugas como a cera derretendo ao som do choro e a minha mãe mesmo ao meu lado muito antes do enterro
- Endoideceste! Como é que tu foste capaz de fazer isto à tua tia?
o lar de velhos finalmente já muito para além da curva, agora sim, posso dormir sem pensar na solidão da minha tia e na dor que a sua morte me provoca.
que parasse de uma vez e me deixasse!
eu cansada de repente do transtorno e do tempo que me escapa a pensá-la rodeada por quilómetros de capim em vez de relva, a azedar como os limões que apodrecem pelo chão, as asas turvas dos pardais em voos caducos sobre o rio, anjos de mármore pelo jardim ao deus dará de asas partidas, andorinhas esbaforidas, o lilás abrasador das buganvílias, as hortênsias moribundas rente ao muro, sorrisos murchos, dentaduras, palidez, rugas de cera derretendo ao abandono, um rectângulo de bafio, duas figueiras depenadas, ela magríssima acenando-me, a promessa
adeusinho qualquer dia venho vê-la
e a minha tia a saber perfeitamente que não vinha, nunca mais a visitava, ela que se acomodasse para morrer ou o que quisesse e que me deixasse em paz, que declinasse a meio da tarde nas cadeiras, que cedesse às extra-sístoles e ao reumático
chás de tília escada acima, escada abaixo
que esquecesse a cama larga de solteira e a luz a entrar-lhe pelo quarto de manhã e a trocasse pela enxerga de bafio e pela penumbra, o pau-santo pelo caruncho da madeira, que trocasse a solidão das noites longas de Benfica por fantasmas a rasar-lhe a cabeceira , pelo menos sempre tinha companhia, alguém que podia acudir-lhe se caísse ou chamar-lhe uma ambulância se morresse, um sobrinho se eu deixasse, já agora um tiro no peito e acabava-se com isto, o gatilho encostado ao coração, era o segundo, não custava mesmo nada e ela ainda num aceno, encostada ao portãozinho
e pareceu-me que sorria, percebia julgo eu, perdoava-me este excesso de palavras, o exílio de Benfica, o acesso de maldade, o ataque de rancor se calhar nem era isso, e então desaparecia de repente numa névoa de poeira luminosa mas devia ser a curva, só podia ser a curva, era a curva de certeza, a rua estreita alargando-se outra vez e o lar de velhos finalmente para trás, a minha tia até que enfim sem dar trabalho confinada ao patiozinho de esqueletos, ao paraíso enganador mas repousante apesar da decadência, até que enfim sem me partir o coração de a ver sozinha sem sobrinhos e sem gatos sem irmãs e sem frasquinhos de compota sem agulhas de crochet e sem bolachas no armário sem almoços ao domingo, a gaveta dos lençóis com cheiro a azedo, o periquito estrangulado na gaiola, até que enfim sem quilómetros de jardim erguendo um cerco à sua volta, outra boneca de poeira que voltaríamos a pôr noutra caixa sem lacinhos e não queria, ali ao menos poderia ficar viva até nos esquecermos dela, não estaríamos presentes para assistir à derrocada de extra-sístoles a calar-lhe o coração um dia a sério
bate-pára bate-pára pára-pára
um cortejo de sobrinhos escada acima, o médico, a malinha, a morte e a certidão pondo fim à expectativa de que fosse só um susto, um sustozinho apenas isso, não teríamos de olhar a magreza do seu corpo já sem fôlego e o pulso sem sinal, paradíssimo, de a velar a noite inteira e ela inerte, as rugas como a cera derretendo ao som do choro e a minha mãe mesmo ao meu lado muito antes do enterro
- Endoideceste! Como é que tu foste capaz de fazer isto à tua tia?
o lar de velhos finalmente já muito para além da curva, agora sim, posso dormir sem pensar na solidão da minha tia e na dor que a sua morte me provoca.
18 setembro 2005
Vejo-a daqui
sentada à minha frente, disparando à queima roupa a pólvora seca das palavras que não chegam a atingir nenhum sentido e faz-me pena. Quer ser uma, quer ser outra, afinal é sempre a mesma, é pouco ou nada mais que ela e eu,
ela?
eu, eu que a vejo ali sentada à minha frente e que me antecipo aos dedos antes que toquem nas teclas, tenho pena. Que me atire
que se atire
aqui para dentro quando aqui já não há nada a prendê-la.
ela?
eu, eu que a vejo ali sentada à minha frente e que me antecipo aos dedos antes que toquem nas teclas, tenho pena. Que me atire
que se atire
aqui para dentro quando aqui já não há nada a prendê-la.
18 agosto 2005
Não vale
mentir, mas tudo o que sobrar para além dessa promessa pode dar-se à invenção ou converter-se à fantasia, amansar-se em água doce ou transmutar-se, pelo dom da alquimia, em amor puro
eu sei que existe
e depois também não vale
agora a pena
procurar as palavras preciosas com que as emoções se enfeitam, para quê, se as sentimos cruamente sobre a pele, única forma de saber se são ou não são autênticas, não vale fingir, pretender que os anjos mais não são do que metáforas
não são
que as suas asas são só isso, quatro letras, abertas ou fechadas, sempre pela mesma ordem
quatro letras a formar uma palavra
não vale fazer de conta que não sou, que volto a ser, que nunca fui, que tenho um nome, não vale de nada, o esforço é outro, o rumo é certo, ainda é o mesmo
o dos pássaros na estação do desembarque
a escrita é só um artifício, um passatempo, uma forma de entreter o movimento dos meus dedos,
ou não é
não vale mentir
eu sei que existe
e depois também não vale
agora a pena
procurar as palavras preciosas com que as emoções se enfeitam, para quê, se as sentimos cruamente sobre a pele, única forma de saber se são ou não são autênticas, não vale fingir, pretender que os anjos mais não são do que metáforas
não são
que as suas asas são só isso, quatro letras, abertas ou fechadas, sempre pela mesma ordem
quatro letras a formar uma palavra
não vale fazer de conta que não sou, que volto a ser, que nunca fui, que tenho um nome, não vale de nada, o esforço é outro, o rumo é certo, ainda é o mesmo
o dos pássaros na estação do desembarque
a escrita é só um artifício, um passatempo, uma forma de entreter o movimento dos meus dedos,
ou não é
não vale mentir
A lápis,
retomei o fim da linha.
Não era mais do que um esboço a carvão traçado à pressa na estação do desembarque,
saio aqui
deserta ainda àquela hora da manhã e eu dando-me conta de que não tinha para onde ir
daí o lápis
daí o risco cor de cinza desenhado numa folha que pousei sobre os joelhos
saio?
não saio
um vago trilho de viagem que rumou directo ao céu antes mesmo de afinar-lhe a direcção e a folha azulando-se nas margens logo abaixo dos meus dedos, tão perto que julguei que o próprio Deus se colava à sua cor
à minha pele
o lápis transformado em aguarela e transportei o céu nas mãos.
afinal saio por aqui, quem sabe se não rumo aos pássaros?
o céu inteiro passado a tinta permanente ao meu alcance e uma linha de horizonte a entrar-me pelos olhos
pela alma
e a dizer-me para embarcar
não há fim
não há memória
agora vai
Não era mais do que um esboço a carvão traçado à pressa na estação do desembarque,
saio aqui
deserta ainda àquela hora da manhã e eu dando-me conta de que não tinha para onde ir
daí o lápis
daí o risco cor de cinza desenhado numa folha que pousei sobre os joelhos
saio?
não saio
um vago trilho de viagem que rumou directo ao céu antes mesmo de afinar-lhe a direcção e a folha azulando-se nas margens logo abaixo dos meus dedos, tão perto que julguei que o próprio Deus se colava à sua cor
à minha pele
o lápis transformado em aguarela e transportei o céu nas mãos.
afinal saio por aqui, quem sabe se não rumo aos pássaros?
o céu inteiro passado a tinta permanente ao meu alcance e uma linha de horizonte a entrar-me pelos olhos
pela alma
e a dizer-me para embarcar
não há fim
não há memória
agora vai
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