25 setembro 2005

As minhas tias

que se ainda fossem vivas e soubessem o que fiz com a irmã me perdoavam, acho eu, compreendiam, eu, num acesso de maldade aquela tarde a entrar pelo jardim como um veneno e a exilá-la brutalmente do amor, a despejá-la da vivenda de Benfica ao ficar subitamente saturada dos achaques, da velhice, dos enjoos que lhe subiam à garganta a ver montras em Algés e, de repente, estatelada no passeio sem mais nem menos, domingo não, domingo sim e era um estorvo de extra-sístoles na missa do meio dia, um chazinho, uma canseira escada abaixo e escada acima para velá-la à cabeceira, o pulso frágil mas teimoso, bate-pára, bate-pára, bate-bate
que parasse de uma vez e me deixasse!
eu cansada de repente do transtorno e do tempo que me escapa a pensá-la rodeada por quilómetros de capim em vez de relva, a azedar como os limões que apodrecem pelo chão, as asas turvas dos pardais em voos caducos sobre o rio, anjos de mármore pelo jardim ao deus dará de asas partidas, andorinhas esbaforidas, o lilás abrasador das buganvílias, as hortênsias moribundas rente ao muro, sorrisos murchos, dentaduras, palidez, rugas de cera derretendo ao abandono, um rectângulo de bafio, duas figueiras depenadas, ela magríssima acenando-me, a promessa
adeusinho qualquer dia venho vê-la
e a minha tia a saber perfeitamente que não vinha, nunca mais a visitava, ela que se acomodasse para morrer ou o que quisesse e que me deixasse em paz, que declinasse a meio da tarde nas cadeiras, que cedesse às extra-sístoles e ao reumático
chás de tília escada acima, escada abaixo
que esquecesse a cama larga de solteira e a luz a entrar-lhe pelo quarto de manhã e a trocasse pela enxerga de bafio e pela penumbra, o pau-santo pelo caruncho da madeira, que trocasse a solidão das noites longas de Benfica por fantasmas a rasar-lhe a cabeceira , pelo menos sempre tinha companhia, alguém que podia acudir-lhe se caísse ou chamar-lhe uma ambulância se morresse, um sobrinho se eu deixasse, já agora um tiro no peito e acabava-se com isto, o gatilho encostado ao coração, era o segundo, não custava mesmo nada e ela ainda num aceno, encostada ao portãozinho
e pareceu-me que sorria, percebia julgo eu, perdoava-me este excesso de palavras, o exílio de Benfica, o acesso de maldade, o ataque de rancor se calhar nem era isso, e então desaparecia de repente numa névoa de poeira luminosa mas devia ser a curva, só podia ser a curva, era a curva de certeza, a rua estreita alargando-se outra vez e o lar de velhos finalmente para trás, a minha tia até que enfim sem dar trabalho confinada ao patiozinho de esqueletos, ao paraíso enganador mas repousante apesar da decadência, até que enfim sem me partir o coração de a ver sozinha sem sobrinhos e sem gatos sem irmãs e sem frasquinhos de compota sem agulhas de crochet e sem bolachas no armário sem almoços ao domingo, a gaveta dos lençóis com cheiro a azedo, o periquito estrangulado na gaiola, até que enfim sem quilómetros de jardim erguendo um cerco à sua volta, outra boneca de poeira que voltaríamos a pôr noutra caixa sem lacinhos e não queria, ali ao menos poderia ficar viva até nos esquecermos dela, não estaríamos presentes para assistir à derrocada de extra-sístoles a calar-lhe o coração um dia a sério
bate-pára bate-pára pára-pára
um cortejo de sobrinhos escada acima, o médico, a malinha, a morte e a certidão pondo fim à expectativa de que fosse só um susto, um sustozinho apenas isso, não teríamos de olhar a magreza do seu corpo já sem fôlego e o pulso sem sinal, paradíssimo, de a velar a noite inteira e ela inerte, as rugas como a cera derretendo ao som do choro e a minha mãe mesmo ao meu lado muito antes do enterro
- Endoideceste! Como é que tu foste capaz de fazer isto à tua tia?
o lar de velhos finalmente já muito para além da curva, agora sim, posso dormir sem pensar na solidão da minha tia e na dor que a sua morte me provoca.

18 setembro 2005

Vejo-a daqui

sentada à minha frente, disparando à queima roupa a pólvora seca das palavras que não chegam a atingir nenhum sentido e faz-me pena. Quer ser uma, quer ser outra, afinal é sempre a mesma, é pouco ou nada mais que ela e eu,
ela?
eu, eu que a vejo ali sentada à minha frente e que me antecipo aos dedos antes que toquem nas teclas, tenho pena. Que me atire
que se atire
aqui para dentro quando aqui já não há nada a prendê-la.

18 agosto 2005

Não vale

mentir, mas tudo o que sobrar para além dessa promessa pode dar-se à invenção ou converter-se à fantasia, amansar-se em água doce ou transmutar-se, pelo dom da alquimia, em amor puro
eu sei que existe
e depois também não vale
agora a pena
procurar as palavras preciosas com que as emoções se enfeitam, para quê, se as sentimos cruamente sobre a pele, única forma de saber se são ou não são autênticas, não vale fingir, pretender que os anjos mais não são do que metáforas
não são
que as suas asas são só isso, quatro letras, abertas ou fechadas, sempre pela mesma ordem
quatro letras a formar uma palavra
não vale fazer de conta que não sou, que volto a ser, que nunca fui, que tenho um nome, não vale de nada, o esforço é outro, o rumo é certo, ainda é o mesmo
o dos pássaros na estação do desembarque
a escrita é só um artifício, um passatempo, uma forma de entreter o movimento dos meus dedos,
ou não é
não vale mentir

A lápis,

retomei o fim da linha.
Não era mais do que um esboço a carvão traçado à pressa na estação do desembarque,
saio aqui
deserta ainda àquela hora da manhã e eu dando-me conta de que não tinha para onde ir
daí o lápis
daí o risco cor de cinza desenhado numa folha que pousei sobre os joelhos
saio?
não saio
um vago trilho de viagem que rumou directo ao céu antes mesmo de afinar-lhe a direcção e a folha azulando-se nas margens logo abaixo dos meus dedos, tão perto que julguei que o próprio Deus se colava à sua cor
à minha pele
o lápis transformado em aguarela e transportei o céu nas mãos.
afinal saio por aqui, quem sabe se não rumo aos pássaros?
o céu inteiro passado a tinta permanente ao meu alcance e uma linha de horizonte a entrar-me pelos olhos
pela alma
e a dizer-me para embarcar
não há fim
não há memória
agora vai

31 julho 2005

Fim da linha.

Saio aqui.

29 julho 2005

À luz do dia,

tudo parece outra cor.

Os pesadelos

ficam no andar de baixo. Lá em cima, levezinhos, estão os sonhos
estão intactos
espreito-os antes de ir dormir sem aquele medo inventado que concebo enquanto escrevo e é o espanto, é a supresa, é a pele orvalhada a descoberto entre os lençóis que me libertam da morte
esse fantasma
e que me dão a noção da felicidade. A vida espraia-se neles, sinto-a pulsar e não há noite em que não vá espiar-lhe a cor, a densidade, assegurar-me que mesmo no escuro cintila e que respiram. Reparo por vezes que cresceram, que os braços sobram na cama, que as pernas estão mais compridas, que os sonhos são lugares maiores, que já não cabem no meu colo como cabiam. Depois percorro-os um a um, peço um desejo
sempre o mesmo
e agradeço.

Chego a ter medo

dos teus olhos quando me sondam no escuro, rumando densos ao meu corpo e envoltos numa penumbra de excessos, maníacos, perversos, querendo possuir-me à força
é isso
então volto-te as costas e nunca adormeço em paz, as retinas que me apontas às costelas e me cingem a cintura de aflições e suores frios, chego a pensar que se atiram aos meus sonhos com a precisão da raiva e que saem disparadas em busca das minhas veias e do sangue que se vai esvair aos poucos e manchar o nosso amor
sinto-o a escorrer por mim
acordo aos gritos e o néctar da manhã, ainda envolta numa bruma, recupera a claridade e reclama a lucidez para a nossa cama
felizmente
reparo que dormes ao meu lado, as tuas pálpebras sombreadas de doçura e fico assim, de frente agora, a pensar se são os teus
os olhos negros que me sondam
ou de um outro que te habita e quando acordas, já sem névoa, a manhã alta e límpida na cama, o amor salvo do sangue, quando acordas e os abres e me olhas descubro que são azuis e se desarmam quando, em paz, rumam aos meus.

27 julho 2005

Hoje passei pelo teu livro

ia com pressa
não, minto
ia com medo
hoje passei pelo teu livro, ia com medo e por isso entrei sem pressa, dedo ante dedo, olhos de esguelha evitando a tua ausência, um seguindo o outro a custo para poderem prevenir o desalento desfasados que dói menos, por fim os dois semi-abertos e vogando no papel à procura das palavras que alinhavas pelo tom da tua voz e que agora, agora o quê?
agora de novo o medo
sucumbiam ao silêncio, à tua morte
pensei eu
que os teus poemas se teriam diluído numa imensa mancha de água
(chorei tanto)
há tanto tempo que chorava que pensei, juro que pensei, que a tua vida não rimava com mais nada e que morrer, virada a última página, era o epílogo da nossa história de amor. Qual não foi por isso o espanto quando te encontrei intacto, tão vivo ainda que cheguei a sentir-te o coração fora da métrica a bater descompassado, o teu coração soberbo
não não era uma metáfora
eras tu, senti-te o pulso, o alvoroço, a valentia, os teus passos percorrendo a distância que existia entre o papel e os meus braços, os teus versos um a um desenhando a trajectória do meu colo, caindo nele
cabendo em mim
as palavras como sopros e eras tu a respirar, cada som, cada palavra, cada rima eras tu a respirar, não estavas morto, o teu hálito a entrar nos meus ouvidos e agitando os meus cabelos, os teus beijos
eram mornos, eram longos
tal e qual como me lembro a rasar a minha boca, a redundância do teu riso a repetir-me uma e outra e outra vez o tamanho enorme e amplo da alegria, o pleonasmo
faz-me feliz a felicidade
rumando à estrofe imprecisa do meu peito e assim fui percorrendo, já muito menos a custo
já muito menos a medo
dedo ante dedo, olhos abertos, os dois agora atrás de ti, presos a ti, fixos nos teus, os poemas que alinhavas pelo timbre do amor e que rimam, afinal, com a tua vida e fecho o livro, fecho os olhos, fecho o medo. Acabo de perceber que sou capaz de te deter, de te agarrar, de me prender a essa tua engenhosa perfeição de sonhador que transforma a tua morte e a tua ausência, pelo dom das palavras que deixaste, num amor vivo e concreto. Que o meu luto, a minha dor, as manchas de água do meu pranto são em honra do comum mortal que foste, mas que o epílogo do amor
do nosso amor
é o teu riso de poeta, o teu coração soberbo, os teus versos desenhando cada um a trajectória do meu colo, caindo nele, cabendo em mim,
não tenho medo.

22 julho 2005

Livra-te disso,

livra-te disso e quanto mais depressa melhor que até eu me canso quando te olho e te percebo curvada, dobrada sobre ti própria, faz-me impressão, o que queres que te diga?, faz, faz-me impressão, dá-me uma espécie de medo achar que podes cair enquanto te espreitas no fundo do rio que sei muito bem que te espreitas, há dias que ando a espiar-te enquanto te espreitas sabias, os teus olhos rompem a água com fúria que eu sei, atiram-se ao espelho de lodo onde já não reconheces ninguém e puxam-lhe o brilho não é, como se ao fim deste tempo o riso e o espanto subissem à tona, clarividentes, ilesos, como se ao fim deste tempo pudesses ser aquela menina pequena que o Mondego acolhia nas pedras não era, não querias, aquela menina pequena, feliz, preferida, perfeita, como se as margens não tivessem há séculos reduzido os teus sonhos a um murmulho de pingos grosseiros e a chuva pudesse, e fosse ainda imagina, a banda alegre na praça da aldeia inundando o coreto de música, és parva, as voltas que o mundo deu entretanto, a quantidade de areia que roubaram às margens, as merdas que despejaram lá dentro não viste, manchas opacas e verdes que engolem a água e a cospem, com espuma ao canto das pedras e sangue nas guerlas da tua infância, percebes, a tua infância que é um lugar de metáforas e pronto, deixa-a, livra-te dela que ninguém mais a habita, nem tu, nem eu, nem as tias põe-te direita, não olhes para trás, não olhes para baixo mas em frente e para cima, ali, no meio do azul estás a ver, aquela nesga de céu que se abre para ti, ali, ali, tens de olhar bem, ali através daquela estreita frincha de luz vês agora, é para lá que os olhos te chamam, para o alto e por isso te digo livra-te disso e despega-os do fundo do rio que me cansas, cansas-me tanto!

É à hora do calor

que o ar se adensa e me dilata, tão espesso que me custa atravessá-lo. As tias velam para que o sol não se acenda no meu peito que, ardido de saudades, tenta esconjurar a morte. A sesta é sempre um labirinto onde julgo achar o sono para logo ele se perder, para me perder, me confundir, abrir-me os olhos, devolver-me ao presente que acompanho com o rumor da minha infância. Estranho vício este de achar que há anos fomos perfeitos e que as coisas e os lugares e os próprios sentimentos, que a distância consagrou em cenários impolutos, não se acercaram de nós para adulterar o perfil da felicidade. Acreditar que as paisagens e os poentes e os pinhais são muito mais do que estilhaços de memória à flor da pele, muito mais do que fragmentos impalpáveis de matéria. Ter a certeza, isso é que é estranho, que a perfeição conserva cores, preserva aromas, retém sons, ampara sonhos e contraria o humor das pulsações, bate-pára bate-pára bate-pára, batendo sempre e para sempre ao ritmo certo e seguro dos corações.
À hora do passado é de calor que me rodeio. É com ele que me adenso e me dilato, é a sesta que atravesso quando a morte vem espreitar-me, as saudades que esconjuro quando me sobem ao peito, e me estilhaçam. Cinco anos e o sol raiando a tarde através dos véus das fadas, o vício da felicidade, a perfeição soando exacta, bate-bate bate-bate bate-bate. Trinta e seis e um labirinto num brevíssimo piscar, aquele mesmo onde o sono me fugia para logo me encontrar, onde há mãos que se agarram para depois se desprenderem e os lençóis, com o travo da alfazema nas suas dobras de renda, me espantam os pesadelos. E as tias pacientes e sentadas ao meu lado, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, as tias vivas, dorme dorme ainda é cedo, brevíssimo o instante que separa a perfeição do ritmo incerto de uma ausência, abro os olhos, fecho os olhos, bate-pára bate-pára bate-pára, oiço o sino que se cala de repente, sinto a noite rente a mim, a subir pelo meu corpo que cresceu sem que lhe tomasse o peso e no escuro perco as referências. Não é a sesta em lume lento que sinto colada aos ossos, bate-pára bate-pára, não é o sol aceso atrás dos véus de popelina, não é o cenário impoluto da infância a soar-me a felicidade, e não era a voz das fadas, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, bate-pára. Não era porque é tarde, pára, dorme dorme ainda é cedo, é muito tarde, pára-pára pára-pára, passou-se tempo, muito tempo, quanto tempo?, e não há forma, não há meio de esconjurar este travo que me dobra o sono ao meio quando durmo e quando acordo num imenso espaço em branco povoado com memórias que me custa atravessar e onde os corações não batem.

21 julho 2005

Olhe, desculpe...

... desculpe lá entrar assim por aqui adentro, sem bater, ainda por cima, mas é que não vi a porta e a janela estava aberta e olhe, sei lá, deu-me vontade de espreitar, sabe, acho até que é natural, para mim é, tenho a mania de espreitar, eu sei que é feio, que não se faz, mas há tanta coisa escancarada por aí que os olhos não resistem a espreitá-las, apanham uma nesga e pumba!, pespegam-se, parece que querem comer as palavras à dentada, e depois colam-se a tudo, mastigam, ficam com elas entaladas a caminho da cabeça, dá-se por eles e já é tarde, embasbacados com o transe do néon, o branco de uns e o branco de outro confundidos e as pupilas dilatadas a atentar nos gatafunhos, a decifrá-los ou lá o que é isso que fazem, a perceber se são mesmo para dizer alguma coisa ou se alguém os disparou num ataque de loucura ou qualquer coisa do género, assim tipo só para confundir a malta, está a ver, para baralhar, dá cá uma trabalheira que eu nem lhe digo nada, até porque, a certa altura, um gajo acorda e pensa o que é que veio aqui fazer e já não encontra nada, é sempre tudo a mesma merda, a mesma mancha, os mesmos riscos alinhados pela bitola das teclas, diga-me lá se não é tudo as mesmas letras, bem feitinhas, com certeza, que nisto as máquinas não falham, mas vai-se a ver o sentido e não há nada, qual sentido, e um gajo pensa, porra, mas para que é que eu fui perder tempo com isto e vai espreitar para outro lado, que raio de vicío, é o que eu acho

13 julho 2005

Quando cheguei,

Fiais ardia em lume brando entregue ao estio. O sol aceso crepitava sobre as serras, consumindo o verde manso dos pinhais e as tias tinham morrido. Afinal, eu não tinha 5 anos e o Mondego já não era o rio cheio da minha infância, mas um fio de água lodoso que lambia as pedras secas.
Dobrei a curva onde as tias se sentavam, atentas ao motor do citroën do meu pai para poderem dar início à contagem decrescente dos minutos que faltavam para chegarmos. Sabiam que, logo a seguir, sairíamos os três ainda zonzos das mil curvas anteriores para cairmos nos seus braços. Agora, no lugar dos sorrisos que se abriam, havia apenas o efeito sombreado das saudades rente à berma.
Mais acima, na torre da igreja, o sino badalava as horas num estretor de altifalantes. Quando eu era pequenina, bastava-lhe vibrar no pendor do próprio som, mas hoje achei que o fazia ao desafio, que desafinava o tempo e que lhe dava, à medida que tocava, o sobressalto ampliado do seu curso inexorável. Senti-me, então, longe das tias e estupidamente crescida.
Por toda a aldeia, as casas, como eu, tinham crescido, cimentando o granito com a estupidez das cores. A das tias, por exemplo, rendera-se ao amarelo e reparei que as janelas, de alumínio, se protegiam com portadas verdes escuras e que a luz, filtrada outrora pelos véus de popelina, hesitava antes de rumar aos quartos e se alargar, viva, às paredes. Lá dentro, tudo se desabitara. O chão dos passos, as velhas camas de ferro dos seus corpos sonhadores, os lençóis do aroma a alfazema, os espelhos dos reflexos e até a salinha onde as tias recebiam as visitas para o chá das conversas e do som das colherzinhas que giravam a adoçá-las.
Quando o sol se apagou atrás das serras, adensando a escuridão, procurei a chama doce e abaulada do petróleo que as tias ateavam com um fósforo e que depois protegiam, numa redoma de vidro. Criam, assim, que os nossos sonhos seriam iluminados e que as suas sombras projectadas pelos corredores da casa, diáfanas e tremeluzentes, nos iriam parecer fadas. Pareciam mesmo e, no entanto, quando acendi o candeeiro e a luz fria do néon me revelou, não a forma abaulada da magia, mas um cubo concreto de abat-jour, as fadas desapareceram. Cedi ao desencanto e devo ter adormecido.
De manhãzinha, notei o sol de novo aceso atrás do véu de popelina. A tia Alma, em frente ao espelho, compunha a cabeleira branca e na cozinha a tia Céu cozia pão. A luz alargava-se às paredes, eu tinha 5 anos e uma esfoladela no joelho por causa de um mergulho no Mondego, tinha contado pelos dedos as oito badaladas da manhã e notado que cabiam no meu tempo e nos meus planos, tinha as minhas tias vivas e um pesadelo que contei rapidamente a toda a gente, a ver se me livrava dele
sonhei que as tias tinham morrido.
Depois, a tia Céu chamou-nos para a mesa e a tia Alma, à laia de recompensa pelo susto daquele sonho, deixou-me repetir o doce de amoras silvestres.

08 julho 2005

Adeus, Miguel!

sophia?! que surpresa! vai-se embora?!...
vou, miguel, regresso por uns tempos à infância!
faz bem! sabe que a psicanálise defende e acredita que todos os nossos traumas advêm da infância?
sei, miguel, mas você não é psicanalista! não me diga que acredita nessa treta?
dou-lhe o benefício da dúvida!
a mim?
não, à psicanálise!, sua tonta!
claro, que estupidez!...
e a qual dos lugares da sua infância é que regressa?
a fiais nas férias grandes.
muito bem! e isso fica...
na beira alta.
ah!... tem lá família, é?
duas tias solteironas, incríveis e maravilhosas, gémeas, ainda por cima!
que delícia! noto que são muito importantes para si...
importantíssimas!
então vá, não perca mais tempo comigo!
adeus, miguel, obrigada por tudo!
ora, sophia, foi um prazer! divirta-se muito! e, se puder, escreva-me!
ai, miguel, isso é que eu já não sei se é possível!
porquê? não há correio em fiais?
haver, há! eu é que ainda não sabia escrever nessa idade...
claro, sophia, não ligue... nem reparei na data da carta! 9 de Julho de 1973? que idade tinha em 73?...

Fiais, 9 de Julho de 1973

Sophiazinha,

Aqui estamos, nos Fiais. Chegámos ontem à tardinha à estação do Carregal. Depois, foi só apanhar a camioneta até aqui. Lá passámos por cima do Mondego, que está cheio e com água bem limpinha. Que sorte! Vais poder tomar muitos banhos estas férias! O Álvaro ajudou-nos com as malas e a Rosa Maria estava à nossa espera com os mimos do costume.
Estamos cheias de saudades! O que vale é que já não falta muito para chegarem!
Manda saudades ao pai e à mãe, muitos beijinhos para ti e para as manas da

tia Céu e tia Alma

Diverte-me a loucura

do meu minúsculo manicómio de ficção, onde os delírios são benignos e não estoiram para arrancar carne a ninguém. Diverte-me a simulação de taras obsessivo-compulsivas, a delirante marcha dos meus dedos sobre as teclas disparando para o ecrã uma série de comuns e banais insanidades, a extravagante invenção de personagens que não quero saber quem são. Divertem-me as palavras que não visam ferir ninguém nem «destruir» quem lá vai dar, pois não estalam nem arrasam nem esburacam nem estilhaçam. E mesmo as pequeninas raivas que parecem provocar, ou o legítimo mau humor de quem não lhes acha graça, não persistem para além dos desabafos, mesmo dos menos simpáticos (se assim não for, vocês é que estão loucos!)
Já a demência desconexa deste imenso manicómio que é o mundo me apavora. Porque essa explode e estala e estilhaça sem aviso em qualquer esquina, a qualquer hora do dia e em qualquer país do mapa. Porque há loucos preparados para acertar na vida alheia e para a fazer esvair-se em dor. Há loucos compulsivos com a tara da maldade e a fixação do ódio a latejar-lhes na cabeça. Há loucos extravagantes. Que não deliram com a benigna e comum insanidade da qual todos nós temos um pouco, mas sim com atrozes fantasias. De dinheiro, de poder, de vingança e violência. Loucos com a paranóia doentia do terror espalhado à toa, com o vício da hegemonia a qualquer preço, com heranças sucessivas de maus tratos onde o exílio da paz ditou a guerra para espanto do amor.
Sucedem-se, por isso, os cenários onde o sangue escorre dos corpos para as ruas. E de vermelho, ainda vivo, passa a luto. Sucedem-se as cidades devastadas pelas bombas, os escombros onde alguém já foi feliz antes dos tiros, os gritos das crianças num presságio de abandono e o colo vazio das mães gerando a contracção do pranto, a solidão brutal dos homens, a loucura farejando a sua presa para saciar o ódio, a raiva surda, o desconsolo ou, simplesmente, o desamor.
O mais grave, no entanto, o que dá razão ao medo e consistência a este absurdo, é que não estamos impunes, nem a salvo, nem preparados para fugir quando sentirmos o perigo. Porque a loucura que anda à solta tem a cor da nossa pele e um coração igual ao nosso a pulsar-lhe nas entranhas. É tão humana como nós. Também respira, também anda, também come e também dorme. Também tem pés e mãos, tronco e cabeça. Mas, por alguma razão, ou por nenhuma, não sabe focar a luz e não sonha com a paz. Por isso, quando atira, podemos ser nós o alvo. E se atirar a matar, aí sim, estilhaça-nos a vida num abrir e fechar de olhos.

07 julho 2005

Há mais alguém para a entrevista?

- Blá blá blá...
- Desculpa?
- Blá blá blá blá, blá blá! Blá blá...
- Como é que te chamas?
- Blá.
- Idade?
- Blá blá.
- Profissão?
- Blá blá blá blá.
- Ah! Deve ser muito aborrecido, não?
- Blá!
- Tens um ipê?
- Blá, blá blá blá... Blá blá! Blá blá blá blá blá! BLÁ! Blá blá blá... Blá? Blá blá blá...
- Eu não te perguntei se ela era uma cínica, perguntei-te se tinhas um ipê...
- Blá blá blá blá blá blá! Blá, blá blá blá blá blá blá... Blá blá blá! Blá blá blá!
- Ok, não dás troco a merdas, tudo bem, mas lá a fazeres-te entender olha que não estou muito de acordo. Bem, adiante. Tens algum animal de estimação?
- Blá, blá blá.
- Fazes colecção de selos ou de outra coisa?
- Blá blá blá blá blá blá...
- Ena, ena! Muito giro! Onde é que costumas passar férias?
- Blá.
- Oh... coitadinha! Gostas de praia?
- Blá blá blá, blá blá blá blá blá, blá. Blá blá, blá blá.
- Compreendo, compreendo... E usas fato de banho ou biquini?
- Blá, blá.
- Bom, acho que é tudo. Infelizmente, não preenches os requisitos para ficar no manicómio. Vou mandar-te a um terapeuta da fala. Entretanto, deves-me 160 euros!
- Blá?! Blá blá!!!!!
- Sim, sim. Tanta conversa a 1€ por minuto, o que é que querias, diz lá?
- Blá...

Quem está primeiro?

- Eu!
- A que horas chegaste?
- 10h35.
- Muito bem. Como te chamas?
- Boneca de Papel.
- Vá lá, não inventes, ganhas mais se fores honesta. Chamas-te como?
- Lenia.
- Lenia?
- Lénia. É com assento.
- Não, desculpa, acento é com «c».
- Ou isso. Ainda não tive tempo para corrigir os eventuais erros.
- Tudo bem, por esta estás desculpada. Lénia com acento, tens um ipê?
- Acho que sim.
- Alguma tara?
- Sou honesto-compulsiva.
- Explica lá isso melhor...
- Não te dês ao trabalho filha o que querias saber já sabes escreves bem sim mas ficas-te por aí ganhavas mais se fosses honesta os blogs são capas porreiras mas a essência é o que fica depois e depois do que escreves não fica nada porque te falta honestidade um dia revelar-te-ás com certeza talvez na apresentação...
- Não fales tão depressa, olha que ainda és capaz de te engasgar...
- ... do teu livro ou assim e aí a não ser que me surpreendas muito e confirmes a minha primeira suspeita serei a primeira a virar costas vazia de livros nas mãos porque te falta honestidade porque só consegues jogar assim tenho pena a sério que tenho porque mais importante do que as escritas brilhantes são as pessoas que se escondem por trás e depois...
- Ó Lénia com acento, tem calma...
- ... revelam-se e temos surpresas agradáveis no teu caso talvez isso não aconteça repara como não fecho hipóteses porque continuo a suspeitar e um dia saberei.
- Acabaste?
- Acho que sim.
- Então agora explica-me lá o que é isso de seres honesto-compulsiva, mas sem rodeios.
- Ganha-se mais.
- Sim... e?!
- Os blogues são capas porreiras.
- Continua, continua...
- Mais importante que as escritas brilhantes são as pessoas que se escondem por trás.
- Acho que já percebi! Não gramas a Sophia nem pintada de amarelo, não é?
- Um dia revelar-se-á com certeza.
- Pareces muito segura de ti...
- Continuo a suspeitar e um dia saberei.
- Muito bem, Lénia com acento. Queres então ficar aqui e tratar da tua tara ou preferes ir e receber, um destes dia, um convite para o lançamento do livro da Sophia?
- Serei a primeira a virar costas vazia de livros nas mãos.
- Ok, tu lá sabes! Escusavas era de ter feito este alarido todo por causa de uma suspeita...
- Tenho pena, a sério que tenho.
- Sim, tens pena, e eu com isso?!
- A essência é o que fica depois e depois do que escreves não fica nada.
- Bom, já percebi que vamos continuar a andar em círculos e eu tenho mais gente lá fora para atender. A tua tara, no entanto, não me parece ser motivo suficiente para que fiques internada.
- Nem eu queria que isto tudo é uma farsa e ganha-se mais com...
- ... honestidade. Sim, já disseste várias vezes.
- Então bom dia.
- Adeus, bom dia. Saudades ao namorido!

Descomunicado:

Está reaberto o blogue
www.nãotedêsaotrabalhodecontarmaisnadafilha.blogspot.com
A fila interminável de malucas à porta do manicómio à espera de uma entrevista a isso nos obrigou.
Gratos pela vossa compreensão,

P'la direcção do manicómio

Miguel Bombarda

06 julho 2005

Comunicado:

Avisam-se todos os cidadãos de bem, e os de mal que quiserem contribuir com qualquer coisa, desde que não matéria orgânica, que a direcção do manicómio decidiu suspender sine die o blogue http://www.contamelátudoquetouaquiquenãomaguento.blogspot.com por o julgar inadequado e, até, injurioso dos costumes e das leis morais vigentes na nação.
Mais se acrescenta que foi, por unanimidade, considerado que, ao longo destes dois últimos dias, sobretudo, se registaram episódios de extraordinário mau gosto, que lesaram profundamente a honra e a dignidade dos mais que muitos implicados no tal blogue (para quem não tomou ainda nota, ou estava distraído a ver o telejornal que deve estar a ir para o ar a esta hora, aqui fica o endereço: www.contamesóoquequiseres.blogspot.com
Ficou ainda registado em acta que um funcionário desta casa, conhecido por dr. singelo, fazendo uso de um ipê que é da instituição, se imiscuiu em vários blogues de pessoas que andam a fazer pela vida e que são sérias e que têm um nome a defender e essas coisas, inserindo aliatoriamente nas caixas de comentários dos visados, onde se encontram, normalmente, os rasgados elogios que vão tecendo uns aos outros, aquele blá blá blá destrambelhado, cujo original se encontra em: http://www.nãocontesquistojátábomassimcagalánele.blogspot.com
Porque cremos que um manicómio tem, entre muitas outras, a responsabilidade de não deixar ninguém ensandecer gratuitamente (e porque já não temos quartos vagos), fica suspenso, sine die, o blogue
Por qualquer incómodo que possamos ter causado, as mais sinceras desculpas.
P'la direcção do manicómio
Miguel Bombarda

Singelo!...

singelo! que raio de nome que você foi arranjar, homem!
... é qu...
deixe estar, deixe estar, não diga nada! bom, singelo, pode ir para casa que hoje já não há mais entrevistas.
sim senhor doutor miguel, muito obrigado!
ó singelo, e antes de se ir daqui para fora, até porque já não o posso ver à frente, confesse-me lá uma coisa: nunca pensou que aquele seu triste comentário fosse dar para tantos posts, pois não?
de facto não, senhor doutor!
pois é, singelo, substimou a autora deste blogue, foi o que foi!
ó senhor doutor, mas veja bem: sem complacência nem piedade, a prosa merece duros reparos, porque podia voar e não voa, porque podia ser música mas não é...
chega, singelo, chega! não é você que gosta tanto de agás?!
agás?
Herberto Helder, Homero...
ah, sim, senhor doutor, isso é verdade!
então seja um Homem, pá! que comentários assim quem os faz são os maricas!
tem razão senhor doutor, não faço mais...
agora baze!

Sou eu, agora!

- Tu?!
- Eu!
- Mas tu já tens cá ficha!
- Ai isso é que não tenho!
- Tens, tens...
- Não tenho, não!
- Tens!
- Não tenho!
- Ok. Tu é que mandas! Nome?
- Inês.
- Inês há muitas! Nome completo, por favor.
- Maria Inês dos Santos Pereira Ramos Silveirinha de Athaíde e Mello y Souza Bastos de Alarcão Fonseca e Costa Vasconcelos Moreira da Silva Sampaio
- Da família dos Sampaios?
- ... Sampaio Braga Pinto Rico
- Da família dos Toscano?
- ... Rico Proença de Castro de Almeida Barata Vieira Bastos Forte&Feio Marreiros da Silva Sa...
- Silva já me tinhas dito!
- Era da parte do pai, este é da parte da mãe!... Silva Salazar das Dores Leitão Rodrigues Alves Reis.
- Vá lá, agora a sério. O teu nome completo?
- Teresa Mello.
- A SÉRIO!
- Isabel Moreira.
- Eu disse: A SÉRIO!
- Antónia Salazar.
- Vá lá, pá, não me faças perder tempo!
- Cláudia Feio.
- Bem, já vi que não vale a pena...
- Elsa Ferreira.
- Ai, ai, ai...
- Beatriz Costa.
- Ok, ok, ok! Não queres dizer não digas! Mas assim ficas sem ficha!
- Está bem, está bem, eu digo! Sophia Athaíde e Mello.
- Até que enfim! Profissão?
- Sou a autora deste blogue.
- Vê-se logo... Patologia?
- Dupla personalidade.
- Dupla?! Que optimista! Alergias?
- Nem por isso.
- Ok, agora báza para o teu quarto!
- Ipê?!
- É verdade, falta isso! Tens um ipê?
- Ontem fiquei a saber que sim.
- É igual ao da nini?
- Não! Isso era bluff dela!
- E ao da Amélia?
- Isso sim! Já a apertei e confessou.
- Mas essa não está lá fora à espera, não?
- Não. Essa está aqui, atrás desta janela.
- É tua amiga?
- É.
- Então, diz-lhe para mudar de ipê.
- Ok, eu digo.
- E fecha a porta, faz favor. Quem se segue?!

A seguir!

- Ôôôiiii... Eu sou a Frô!
- Frô?! És brasileira?
- É isso aí...
- E estás legalizada?
- Tô não siô.
- Desculpa?
- Tô não siô!
- Tounãossiou p'ra ti também...
(suspiro!)
- É cada cromo! Frô, que idade tens?
- Quárenta e um.
- Profissão?
- ...
- Profissão?
- é másságista.
- Másságista? Ena, ena... És casada?
- Sô não siô!
- Outra vez!
(suspiro maior)
- Que g'anda cromo! Frô, tens um ipê?
- É.
- É o quê?
- Ipê aí!
- Não, filha, não é isso. Ipê? Tens um ipê?
- Tem não siô.
- Eu logo vi.
- Patologia?
- Olhá, pátologia não tem não siô, mas dá p'ra arranjar, si o siô quisé...
- Arranja lá.
- Pode sê uma pérturbação somatoforme?
- Pode!
- E um comportamento suicida?
- Isso já não.
- E uma pérturbação dissociativa?
- Em que ficamos? Somatoforme ou dissociativa?
- Mmmm... Somatoforme.
- Ok. Quarto cento e catorze.

Olá, eu sou a Carla...

- Com C ou com K?
- Pode ser com K...
- Então é Karla, não é Carla...
- Pode ser.
- Pode ser, não! É ou não é?
- É.
- Ok, Karla, vamos directos ao assunto que ainda há muitas para atender e eu estou quase sem paciência para vocês... Tens ipê?
- Tenho vários.
- Vários?
- Pronto, alguns!
- Quantos, exactamente?
- Três ou quatro.
- Três ou quatro?
- Três.
- Ok, três ipês. E podes descrevê-los?
- Descrevê-los?
- Sim, pá! Altos, baixos, gordos, magros, essas coisas...
- Ah, sim, gordos.
- Gordos, gordos?
- Gordos.
- O que é que te traz por cá?
- Bulimia compulsiva.
- Muito bem. Profissão?
- Mulher a dias.
- Ganhas bem?
- Mais ou menos.
- Limpas bem?
- Mais ou menos.
- Comes bem?
- Muito bem.
- O teu prato preferido?
- Cozido à portuguesa.
- Tens troco de cinco euros?
- Acho que sim, deixe cá ver... Aqui tem!
- Obrigadinho. Quarto cento e treze, ao fundo do corredor. Toma a chave.
- Ah, não, não pode ser!
- Não pode ser?
- Não que o 13 dá azar.
- Eu disse cento e treze!
- Mesmo assim...
- Se é mesmo assim, azar o teu! A seguir...?
- ...

Podemos recomeçar?

- Mas já são três da tarde?
- Já passa, pá!
- Então chama lá a próxima...
- A Rita?
- Não, pá, essa foi-se embora!
- Ah, não tinha nada para curar?
- Tinha, tinha... Mas não é da nossa competência!
- Tinha o quê?
- Cochichos nas orelhas, fungos no nariz e joanetes.
- Tschhhh, coitada!
- Vá, chama lá a Carla!
- Caaaaarlaaaa... Ó Carla! Caaaarlaaaa...

Olá, eu sou a Rita...

- Ai, filha, agora não! Agora vou almoçar, tem lá paciência! Volta às três.

Posso entrar?

- Faça favor!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Você é a...
- Vanessa!
- Vanessa! Muito bem! Kátia Vanessa?
- Não, não, é só Vanessa.
- Só Vanessa, muito bem! Que idade tem?
- Vinte e cinco.
- Vinte e cinco... Vinte e cinco? Não parece! E vem de...
- Dali de baixo.
- Número?
- 2.
- E o código postal?
- 2005-607.
- Tem namorado?
- Agora não.
- Sida?
- Ainda não.
- E é virgem?
- Não, já não.
- O que é que faz?
- Sou cabeleireira.
- Hum... cabeleireira! Ó Só Vanessa, se eu lhe pedisse para pintar ali o cabelo à Marta fazia-me o jeitinho?
- De que cor?
- Logo se vê! Continuando... Só Vanessa, gosta da sua profissão?
- Gosto muito, sim senhor.
- E o que é que a traz aqui?
- Sou suburbano-depressiva.
- Pois. De facto, isso é muito aborrecido.
- Mas acha que tem cura?
- Calma, Só Vanessa, calma... Com calma tudo se cura!
- Até uma suburbano-depressão aguda?
- Sim, até isso. Bom, acho que é tudo... Ah não! Espere aí, ainda falta uma pergunta: tem ipê?
- I quê?
- IPÊ!
- Ipê? Acho que não... Mas tenho Lexotans! Acha que serve?
- Esqueça! Aqui tem a chave...
- Quarto número cento e doze?
- Isso, o das emergências médicas. Ao pé das outras duas, ao fundo do corredor. Bom sorte, Só Vanessa!
- Obrigadinha.

Olá, eu sou a Marta!

- Olá Marta! Por favor, dê uma voltinha... Isso mesmo! Muito bem! Marta, que idade tem?
- 32.
- Trinta e dois?
- 32.
- 32 ou trinta e dois?
- Eu disse 32.
- Muito bem, 32. Casada?
- Solteira.
- Profissão?
- Recepcionista.
- Numa multinacional?
- No escritório do meu tio.
- Ah! Empresa familiar?
- Sim.
- Qual é o ramo?
- Confecções.
- Muito bem. Ipê, tem?
- I quê?
- IPÊ.
- Ipê?
- IPÊ.
- Não. Mas tenho telemóvel.
- Pois, mas isso não nos serve para nada!
- Alergias?
- Singelas!
- Diga?
- Simples. Ao pó, aos cochichos, aos acarónimos...
- Muito bem. Pinta o cabelo?
- Não.
- Olhe que devia.
- Acha mesmo?
- Hum... Deixe cá ver... bom, talvez ainda aguente mais uns meses. Tem doenças?
- Esquizofrenia.
- O quê?, também?!
- Também!
- Ouve vozes?
- E suspiros.
- E isso dura há quanto tempo?
- Há meia hora, mais ou menos.
- Muito bem. Quarto número cento e dez, a chave é esta... É já ali, ao fundo do corredor.
- Ao lado do da Sophia?
- Isso mesmo, o dela é o cento e onze. Marta, boa sorte e bem vinda ao manicómio.
- Isto é para a televisão, não é?
- É, é. Agora vá.

5 comments

dr. singelo screamed...
CHAMO AOS GRITOS POR TI, CHAMO AOS GRITOS POR TI
CHAMO AOS GRITOS POR TI, CHAMO AOS GRITOS POR TI
CHAMO AOS GRITOS POR TI, CHAMO AOS GRITOS POR TI
CHAMO AOS GRITOS POR TI, CHAMO AOS GRITOS POR TI

lugar comum said...
singelo amigo, é perturbante a tua prosa e sobretudo
o terror dessa ansiedade com que gritas. vê-se bem que
lês páginas e páginas e páginas e páginas de Herberto
Helder todas as noites...
p.s. gosto muito do ulisses!

tribunal de contas said...
depois de uma auditoria, acusamos o hospital miguel
bombarda de ter efectuado pagamentos indevidos em
perícias médicas no valor de 35 mil euros. é no que dá
achar que se está a levar para lá uma maluca e, afinal,
serem para aí umas dez...

miguel bombarda asked...
dez?!

dr. singelo wished...
BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO, BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO
BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO, BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO
BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO, BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO
BEIJO-TE...

Olá Sophia!

olá miguel!
olhe, minha querida, hoje quem vai tratar de si e dar-lhe os choques e essas coisas é o dr. singelo, não se importa?
dr. singelo?! quem é esse?
um amigo que gosta do Homero e do Helder...
Helder?!
Herberto Helder!
ah!
conhece?
só de ler à noite, antes de deitar.
muito bem, já não é mau. quantas páginas por noite?
sempre duas!
bom, é provável que ele...
o Helder?
não, o tal singelo, é provável que comece por dizer-lhe qualquer coisa como «ou és outra, ou me enganas, ou te escondes por detrás do terror deste vazio...»
ah! então ele já sabe que eu sou outra?!
ou que o engana!
eu, enganá-lo? a que propósito?
sei lá! mas habitue-se! o dr. singelo é assim mesmo e é bem possível que vá aparecer por cá mais vezes! aproveite para aprender com ele...
o quê? o terror deste vazio?
vá lá, não seja assim. ele próprio tem a sua quota parte de demência, mas dá boas receitas!
comprimidos?
não, não...
então o quê?
choques poéticos!
ai que lindo!
é, é... vai ver como a demência dele será capaz de semear na sua ôca cabecinha imagens poderosas, perturbantes!
de terror?
talvez!
blherc!
vá, vá... não seja assim! olhe, ali está ele!
CHAMO AOS GRITOS POR TI
calma, calma companheiro, que a miúda não é surda!
NÃO ME RESPONDES
dr. singelo? dr. singelo...
BEIJO-TE AS MÃOS E O ROSTO...
isso é que não miguel, que ele é nojento!
SINTO FRIO.
pronto! chega! chega que essa parte já sabemos! é aquela do «ou és outra ou me enganas não sei quê não sei que mais...»
ok, ok! corta!

Hoje de manhã,

quando passei a caminho do trabalho, ainda estavam aos cochichos

- Aquela parvalhona só quer protagonismo, é o que é, anda a ver se aumenta as visitas e se alguém põe lá um comentário. É que só pode!
- É, é... Sabes, é gente que não tem objectivos nem mais nada que fazer... Isto não é suposto escrever-se quando nos apetece? Não é suposto ser para a malta se divertir?
- O que a gaja precisa é de tratar da cabeça! Olha, a minha Maria, que é psicóloga e precisa de ganhar dinheiro, pode dar-lhe uma ajudinha...
- Trailarai larai larai... Mas que cabecinhas ocas!
- Ela que se cuide, pá, ela que se cuide!
- Santa paciência! Mas ele há gente que gosta mesmo disto, chatear os outros...
- É mas é uma básica do caraças! Oh gentinha mal amada...
- Poizé, poizé, poizé...

Mas será que estas alminhas ainda não têm internet? Passar os dias à janela no cochicho com as vizinhas! Valha-nos Santa Cita, pá!

05 julho 2005

Miguel...

migué él... miguel! miguel, acorde!
minha querida! ainda a pé a estas horas?! mas que grande insanidade! não tinha tirado uns dias para ir não sei aonde?
demorei menos tempo que o previsto! já voltei...
que já voltou estou eu a ver. e o que é que quer?
aqueles fiozinhos...
sim?!
aqueles que dão uns choques e que fazem comichão e estremeções e não sei quê...
sim?!
aqueles que me perguntou se eu queria que ligasse à minha cabeça ou à cabeça dela, sabe?
perfeitamente, sim...
aqueles que acabou por ligar à cabeça dela...
sim, sim!
não resultaram!
não resultaram?!
não resultaram!
como é que sabe?
olhe para ali...
para ali para onde?
ali para baixo...
hãn?
ali, ali... não vê?
ai coitadinha! deus me valha! aquilo é ela?
aquilo é ela! aliás, aquilo são elas!
estou a ver perfeitamente! são mesmo uma data delas!
e agora?
agora o quê?
o que é que vamos fazer?!
ora, o que é que vamos fazer?! vamos esperar que ela nos diga quem são!
você está doido!
não, não! doida está ela!... deus me valha! é que não tenho fios que cheguem para aquela gente toda!
deus lhe valha, pode crer!
bom... durma bem!
obrigadinha, até amanhã!
apago a luz?
apague tudo, não lhe vá dar na cabeça trazer as outras para aqui a esta hora da noite...
tschhhhhh... nem tinha pensado nisso! deus me valha!
é isso mesmo! deus lhe valha...
então boa noite.
adeus, sophia, durma bem.

(Nem quero pensar o que seria se isto não fosse um manicómio! Era de dar maluco, era o que era...)

O toque

da tua pele gelada ainda provoca em mim lentos arrepios de ausência. Procuro-te e já não estás no lugar onde morámos e onde havia bunganvílias que trepavam muro acima e ao desafio das cores. O que me espanta, meu amor, é que ainda não murcharam. É quando passo por elas e as oiço a respirar e me parece a tua voz profunda e doce a subir aos meus ouvidos e ali fico. Rente ao muro e sem querer voltar a casa para não te encontrar ausente. O vento passa e segreda-me o outono que há-de vir um dia destes e o leve cair das folhas que, sem querer, trará com ele. Espero então que as cores se esbatam e que as flores caiam no chão, benignamente como quem se prepara para dormir um sono longo. Ainda é verão e eu aqui, recordando a pele de inverno do teu corpo e acorrendo ao arrepio que ele me provoca com as cores das buganvílias, diz lá se não estou demente? Amanhã, pela manhã, vou pedir ao jardineiro que as corte e leve a raíz de ti do jardim onde morámos e das minhas mãos também. Tenho coisas para fazer. Não posso ficar mais tempo rente ao muro da tua morte, esperando ano após ano e estação após estação que as saudades me venham murchar aos dedos nem que a tua pele retome a calidez da primavera.

Entretanto,

entre o sono e a vigília e viagens ao caralho que de real tem pouco ou nada (pronto!, era loiro, mas era tudo!), assisto impávida às mostras de cobardia do «meu» povo. Terão perdido os nomes no caminho até aqui, ou gostarão de adaptar, conforme lhes convém, as regras de um lugar para outro, mudando-as à medida que navegam do lago que conhecem como a palminha das mãos (e onde podem chafurdar no lodo que há sempre alguém a aplaudi-los) para «águas inimigas»? A mim tanto me faz, mas não deixo de achar que é cobardia - agora sim, falamos de tomates - escrever lá exactamente o mesmo que escrevem aqui, ou parecido, com a diferença que lá assinam em baixo (seja com o vosso nome, com o da prima, o do gato, do alter-ego ou do que for) e aqui são aquele universal e comezinho anonymous de merda, pergunto-me por que será. Vocês lá sabem...

Resolvi levar à letra

a sugestão - há tanta gente a levar à letra tanta coisa! - e, depois de pedir ao Miguel para me ausentar do manicómio por três dias, lá fui ao real caralho. É claro que, primeiro, tive de escolher um rei e escolhi um alto, loiro e espadaúdo, já que, no meu imaginário, é esse o melhor porte para um real caralho. E, de facto, confirmou-se. Era um real caralho mesmo, alto, loiro e espadaúdo como o dono, enorme e grosso como a tromba de um elefante
eh lá
disse eu a medo
mas que grande caralho, majestade!
O rei, genuinamente admirado, perguntou-me
mas quem foi que a mandou cá?
foi um gajo!
disse-lhe eu
e mandou-a a si, concretamente, ou foi a outra pessoa?
e aí fiquei mesmo espantada
não me diga que lê blogues, majestade?
minha filha...
disse o rei
(além de alto, loiro e espadaúdo, pareceu-me condescendente)
eu leio tudo!
muito me espanta, majestade! achei que os reis não tinham tempo para esses passatempos de plebeus!
fez-me um aceno com a cabeça e a coroa descaiu e
é por isso que sei que não foi a si que mandaram...
e apontou as reais partes, com pudor, é preciso que se diga
...aqui para o coiso, ore confesse!
pois não, não foi a mim!...
confessei, envergonhada
foi a uma tal de nini!
então volte para casa, volte, minha querida! volte que, para confusões, por hoje, já basta!
com certeza, majestade, vou voltar!
E voltei mesmo (já cá estou!), impressionada com aquele real caralho do tamanho de uma tromba, mas sobretudo com aquele rei - alto, loiro e espadaúdo - que topou o logro à légua e sem eu lhe contar nada.

2 comments

um gajo que agora não me lembro o nome said...
vá para o real caralho, vá para o real caralho
vá para o real caralho, vá para o real caralho
vá para o real caralho, vá para o real caralho
vá para o real caralho, vá para o real caralho
vá para o real caralho, vá para o...

violeta said...
querida sophia, que pesadelo horrível! imagino
que tenhas acordado muito assustada, coitadinha!
espero que saias depressa do manicómio e que
o miguel te consiga curar. ouvi dizer que é um
excelente médico de malucos. beijinhos e as
melhoras!

Dormitei

e, no torpor diminutivo da tardinha- que à tardinha pouco ou nada há para fazer num manicómio - mergulhei num pesadelo perturbador. Eu era eu, e tinha a certeza disso, e havia à minha volta uma série de pessoas agarradas a teclados e de olhos postos num écran em forma de ovo. De repente, sem que ninguém tivesse mexido um dedo, apareceu um insulto em letras pequeninas no écran onde os olhos das pessoas estavam postos e, não sei muito bem porquê, as pessoas confundiram-no comigo. Num instante, metralharam com os dedos os teclados que traziam e encheram o écran de outros insultos, tão ou mais destrambelhados que o primeiro. Agora já não sei reproduzi-los um a um, mas todos se insurgiam contra uma tal nini que achincalhava a Catarina. Percebi que olhavam para mim com um ar pouco amistoso e que gritavam muito alto coisas feias e que estavam realmente enfurecidos com a nini, o que até era normal, só que ela não era eu e eu também não era ela. Estarrecida e apanhada no meio desta confusão, onde havia um senhor a mandar a tal nini para o real caralho, mesmo assim, com as letras todas
nini, vá para o real caralho
ia assistindo, caladinha, à troca de galhardetes que, sem cessar, continuavam a fervilhar no écran-ovo. Para agravar ainda mais toda esta cena insólita, juntou-se à festa uma amelinha que, mais uma vez e não sei se devido ao teor do comentário ou se do quê, as pessoas acharam (outra vez?!) que era eu. Não se desculpa a mesma farsa duas vezes e lá nisso estou de acordo, mas porque era mentira que eu fosse elas, ou que elas fossem eu, precisei de defender-me. E, nessa altura, eu que sou eu, muni-me também de teclas, escrevi ponderadamente a minha versão dos factos, que fiz seguir directamente para o écran que agora era um rectângulo, e estive quase para acordar nesse momento e contar tudo à Catarina. A sesta, no entanto, não tinha ainda terminado. Virei-me para o outro lado e a sonolência, já livre do pesadelo e dos insultos e dos gritos e das teclas, devolveu-me a lucidez: há muito tempo que ela sabe quem eu sou e isso faz-me suspirar de alívio. Conhece o meu nome verdadeiro e parte da minha história - que, afinal, vou contando noutros lados - e de certeza que percebe que nestes lugares de escrita, venham lá de onde vierem as palavras e porquê, habita gente. E se não fosse o Miguel ter entrado nessa altura no meu quarto,
a dormir, sua maluca?! mas isto lá são horas de dormir! toca a acordar!...
tinha ido ter com ela para que confirmasse ao vivo que não tenho nem cara de nini nem de amélia nem de insulto e que a Sophia - mesmo parva - não trai a minha honestidade.
E, já agora, para que não ficasse a dúvida - ou a coincidência estranha - de haver três (três?) «ipês» iguais, apresentava-me
- Olá, sou a Inês.
Mas fica para outro dia, que agora o Miguel acabou de ligar os fios eléctricos e vai dar-me uns choquezinhos para ver se curamos de uma vez esta maldita - e, pelos vistos, controvesa - dupla personalidade
minha querida, então em que cabeça é que quer que eu ligue os fios? na sua ou na da sophia?
Nem hesitei
ligue na dela!, que ela é que tem a culpa!

Ainda bem

que há sempre um dia seguinte e uma próxima frase. Isso permite que não me feche em mim própria e que acredite que sou sempre capaz de fazer mais e melhor.

Olha, desculpa lá voltar àquele assunto...

porra, que és mesmo uma g'anda melga! vou dizer-te pela última vez: é mesmo um livro, pá! um livro a sério! um livro com princípio, meio e fim. com uma história e personagens e diálogos e essas merdas todas que fazem parte dos livros, ok?! com um enredo! um livro verdadeiro, percebeste?! um livro! éle, i, vê, erre, ó! LIVRO! não é uma resma de posts colados uns aos outros e enfiados no papel todos muito bonitinhos com uma capa e não sei quê e um gajo a virar as páginas e aquilo tudo aos bocados, ok? está percebido? é uma cena toda seguida e é preciso algum fôlego para escrever aquela merda toda direitinha até ao fim que não é com soprozinhos aqui e ali que se chega lá, 'tás a ver? porra! mas será que ninguém percebe que um livro é um livro e outra coisa é outra coisa?!! que cena, pá!

Querida Mãe,

não estou autorizada a escrever cartas, só posts. Por isso, se quiser, abra o meu computador (tem lá um botãozinho do lado direito com uma luzinha a piscar) e vá a www.contametudo.blogspot.com
Com sorte, pode ser que lhe vá dando notícias.

Muitos beijinhos da

Sophia

P.S. Já me cortaram o cabelo. Ficou um espanto!

Minha querida filha,

hoje de manhã, quando acordei, descobri o teu bilhete em cima da escrivaninha. Li-o e reli-o várias vezes e ainda me custa a acreditar que tenhas acedido a ir para um manicómio na companhia de um senhor que mal conheces. Está bem que Miguel Bombarda é um nome que, até a mim, me diz alguma coisa, mas daí até teres concordado em seguir os seus conselhos vai uma grande distância. Tenho pensado se terão sido os meus gritos despropositados que te fizeram tomar esta decisão precipitada, mas não creio. Afinal, grito contigo tantas vezes e sempre tão a despropósito que não era agora que te ia dar para te ofenderes. A verdade é que já sinto muito a tua falta. A casa parece-me vazia sem as tuas maluqueiras e dá-me um aperto no peito quando penso que te podem fazer mal. Só espero que não te rapem o cabelo, que não te dêem choques eléctricos e que não te mandem para casa ainda mais doida do que és, pois não ia aguentar e detestaria entrar em coma novamente.
Aguardo notícias tuas, se é que podes escrever cartas daí. Se puderes, por favor, conta-me tudo.
Muitos beijinhos da
Mãe

Vieste em passos leves

pedir-me em casamento e disse-te que não. Não sei amar quem vem a mim sem deixar rasto, quem pisa o chão com cerimónia sem ousar deixar vestígios, quem não demarca o território do amor por medo que lhe venha a pertencer sem lhe ter dado um limite. Tivesses corrido alto, gritando os passos que davas ao meu encontro e tudo seria manso. Poderia abrir-te os braços e calhar tu caberes neles, mas assim não. Assim sem quereres que dê por ti, andando como quem esvoaça em círculos à espera de me iludires, ou talvez cogitando a aparição pela surpresa para me baixar as defesas, assim não caso contigo.

04 julho 2005

Desculpa lá,

mas é que ainda estou a pensar naquilo do livro...
e...?
e... é mesmo um livro?
é, é mesmo um livro!
mesmo, mesmo?
mesmo, mesmo!
mas não é o mesmo?
não, não é o mesmo!
é que, se fosse, andavas a repetir-te!
pois, se fosse, andava a repetir-me!
e é parecido?
não, também não é parecido!
então é como?
sei lá como é que é! ainda não está escrito!
mas vais mesmo escrevê-lo?
vou, vou mesmo escrevê-lo!
e é mesmo um livro?
porra que és chata! sim, é mesmo um livro!
pronto, não te irrites! só queria confirmar...
e então?
então, está confirmado.
já posso ir?
vai, vai...

Nós as três,

a certa altura, eramos assim uma espécie de santíssima trindade. Não uma santíssima trindade em cruz, a fazer lembrar milagres, mas talvez uma santíssima trindade abençoada, pela maneira como os eixos da amizade encaixavam uns nos outros, dando-nos a medida exacta da geometria dos afectos.
Acho que foi o deserto, e a maneira destemida como galgávamos os precipícios - a cantar o trem das onze- o que acabou por nos unir. Não que não fossemos já amigas antes disso, mas há qualquer coisa no deserto que faz com que quem passa por lá não se esqueça nunca mais da cor das dunas, à tardinha, ou do céu iluminado por mil estrelas de algodão, levíssimas como as almas quando se sentem felizes, o que era precisamente o nosso caso.
Trazíamos de trás as nossas histórias, como é óbvio, mas parecia que a vida nos juntava às três num só caminho e que nos seria admitido percorrê-lo sem desvios. Ou seja, parecia, nessa altura, que mesmo que uma de nós tomasse um atalho em vez da estrada principal, logo, logo voltaria a encontrar as outras duas numa esquina.
Afinal, não foi assim que aconteceu. Cada uma pelos seus motivos e fomos deixando o deserto para trás. Ele persiste, no entanto, dourado e deslumbrante, no seu lugar de sempre. As dunas, a magia, os precipícios, o sol a deslizar por nós abaixo ao fim da tarde, as velas e o lago e o céu iluminado por mil estrelas de algodão e até a felicidade ainda lá estão, tenho a certeza. Basta retomar a caminhada e ir dar à esquina certa. Sem tempo e sem hora marcada, pode ser, mas a tempo de viver - ainda e sempre - esta santíssima amizade que temos deixado pendente.

Convidei a minha amiga Joana

para almoçar, mas continuo sem saber se ela aceitou. Muito mais do que um bife com batatas fritas para ela e uma saladinha ligeira para mim, o que eu queria mesmo era ouvi-la rir às gargalhadas.

Roubo o título

de um livro a um dos meus escritores preferidos
O que farei quando tudo arde?
e respiro o ar a custo, tacteando a direcção do fumo que me embacia as pálpebras e depois me desce aos olhos, abrindo e fechando as mãos onde a cinza vai caindo, minúsculas partículas trazidas pelo vento, cada uma revelando o que sobrou das árvores devoradas pelas chamas. Imagino uma paisagem que derrete ao calor laranja vivo e a exaustão dos homens que, em vão, tentam salvá-la.
O que farei quando tudo arde
num país que pouco mais tem para arder? Quantos mais fogos irão ludibriar a vida que se instala a pouco e pouco nos parques, nas florestas, nas serras, perto das casas e das gentes que se juntam quando ainda vão rasteiros e que, num abrir e fechar de olhos, as cercam em todas as frentes?
O que farei quando tudo arder
(será que um dia o país arde de vez?)
e não sobrar verde nos campos, nem nos parques, nem nas serras, nem no coração das gentes? Quando as copas de fuligem não puderem proteger-nos mais do sol? Quando o negrume das cinzas e do pó nos embaciar o céu a ponto de perdermos a referência do azul?

Um livro?!

Um livro a sério? Mesmo a sério? Um livro, sabes, um livro mesmo?! Daqueles que começam e acabam e que têm uma história e personagens e essas coisas...? É isso? É um livro desses? Um livro com princípio, meio e fim, portanto?! Um livro sério. A sério. Um livro verdadeiro. É isso?! Ah é isso! É um livro verdadeiro... Pois, olha, sabes que mais? Tem lá mas é juízo, pá!

Mesmo no princípio,

no principiozinho mesmo, preocupava-me um bocado. Estreante na blogosfera, entrei com a mão errada e, confesso, escrevi alguns posts de que agora me arrependo, pois não eram de todo pertinentes e, muito menos, necessários. Mas, pronto, já passou! Já nem estão lá, que o Gonçalo teve o bom senso de não lhes fazer o copy-paste. Mas, dizia eu, preocupava-me com algumas coisas nessa altura. Com quê? Ora, com coisinhas parvas, como é óbvio! Do tipo precisar de andar por aí a deixar pegadas que atraíssem curiosos, de melgar a Catarina, de ligar a chafarica na ansiedade de ver se alguém tinha deixado comentários, e por aí fora... A certa altura, cansei-me desta pré ocupação, que quase me tirava o gozo de escrever, e fiz um «delete this blog» irreversível. Bom, é claro que guardei tudo num documento word, porque sou precipitada, sim, mas não sou parva de todo (só um bocado!). Mais não fosse para guardar nos meus arquivos, e juntar a milhares de outros, uns quantos caracteres de escrita.
No outro dia, sei lá porquê, deu-me um vaipe... e reabri a chafarica. A grande diferença é que já não estou muito preocupada (sim, é verdade, já melguei a Catarina, mas sei que ela me desculpa...) com o que se passa além daqui. Quem vem, quem vai, quem fica, quem volta, quem gosta, quem não gosta, quem linka, quem deslinka...
Percebo que o retorno, a este nível, não se contabiliza assim. E ainda que não perceba muito bem por que razão não escrevo, como sempre fiz, no meu canto e sem mirones, vou ficando por aqui. Escrevendo e apagando e tentando e reescrevendo. Enquanto no tal documento off line se vai esboçando um livro...

um livro?!
um livro...
meu deus! um livro mesmo?!
espero que sim, um livro mesmo!
não podes adiantar a história, não?
não, desculpa lá!
mas já o começaste?
mais ou menos!
não podes mesmo dizer nada, nada?
nada, nada!
mas é um livro?
é!
um livro mesmo?
um livro mesmo!
meu deus...

A graça é que, aqui, não preciso de uma história e posso saltar capítulos, inventar um montão de disparates sem pudor, não tenho compromissos nem censura que me iniba, posso pôr a Sophia a arcar com a minha estupidez, inventar ser quem eu quiser, o que quiser, quando quiser, sem obedecer a regras, coerências, o que for... E é muito divertido, porque são tiradas curtas, sem nexo, tantas vezes sem sentido, às vezes divertidas, outras vezes nem por isso, e sempre sem necessidade de um fio condutor para as unir. Em suma, é um excelente exercício para a minha outra escrita

a do livro?!
pois, a do livro...
um livro mesmo?
um livro mesmo!
um livro a sério?
um livro a sério?
conta lá sobre o que é...
não posso!
conta lá!
então espera, deixa-me só acabar este post e já te conto...

E sempre vou animando os meus amigos (é o que eles dizem, pelo menos!)

então, é assim: o livro é sobre... ops! deixa-me só desligar isto...

O Miguel

é um querido e estamos os dois a dar-nos lindamente. Ficou muito espantado quando me veio buscar no outro dia, eram sete e meia da manhã, e me viu pronta e feliz, de mala feita, em vez de barricada atrás da cama ou escondida na despensa e até me disse
mas que grande supresa, minha querida! pensei que a ia encontrar aos gritos e por isso...
e nessa altura sacou de uma camisa com mangas muito compridas e mostrou-me
até trouxe isto!
aaaaahhhhh!
exclamei eu, maravilhada,
ó Miguel, mas que camisa giríssima! sabe que sempre sonhei ter uma camisa assim, com mangas onde os braços me sobrassem? não se importa que eu a vista, não?
Não se importou, embora tenha perguntado
mas tem mesmo a certeza?!
Fiz que sim com a cabeça e enfiei-a
giríssima, não acha?
e percebi que aquilo o tinha deixado um bocadinho baralhado das ideias. Mas, afinal, não é ele que me acha esquizofrénica? Então, já devia estar à espera de uma cena deste tipo, olha, olha...
Bom, a seguir, despedi-me da família, quer dizer, deixei-lhes um bilhete em cima da escrivaninha da entrada, que àquela hora ainda estavam todos a dormir, e entrei num jaguar descapotável, moderníssimo. O Miguel, muito educado, abriu-me e fechou-me a porta
obrigada! você é mesmo um querido!
e arrancámos.
Fui o caminho inteiro a olhar para ele e a pensar que trocava de bom grado o escanzelado do Vasquinho por este Bombarda...eiro! É um queridooooooo!

03 julho 2005

Diz-me lá:

um documento word não faria exactamente o mesmo efeito? Não seria até mais fácil, mais honesto? Então porquê esta mania de (ex)pôr palavras a boiar no meio de um plasma interactivo se são tuas, se são íntimas, sobretudo se não são perfeitas (longe disso)? Não se dá a ler aos outros o que ainda não está escrito, e sabes bem que por aqui há coisas que se vão escrevendo e apagando e reescrevendo, mas escrita, escrita propriamente dita, isso não há. Um documento word, em vez de um blog, e eras muito mais tu própria, muito mais feliz até, com o néon por tua conta e sem o constante sobressalto das visitas imprevistas debruçadas sobre frases que deixaste inacabadas. Era muito mais sossego e eram muito menos nervos, já pensaste? Poder navegar sem rede, abrir e fechar o documento sem este fetiche dos bloguistas que sonham vir um dia a ser escritores - «publish post» - poder mexer no texto todas as vezes que quisesses sem manobras complicadas de template, diz lá se não era bom?! Se não era muito mais inteligente?

Irritas-me

sempre que ensaias literatura, ou lá o que é isso que escreves, sempre que vens de carne dar ao plasma, como se fosses mais que eu e tivesses, à tua disposição, mecanismos que o meu corpo não comporta e uma forma de dizer as coisas que a minha mente não consegue decifrar. Nem sequer é o talento que te invejo, porque não o reconheço, mas essa falsa modéstia em que te envolves, convencida de que assim te sobrepões ao estorvo que represento para ti e que me anulas, deixando-me à mercê da minha própria estupidez. E, no entanto, todos os meus movimentos estão dependentes do teu corpo e cada uma das palavras que preferes atribuir-me, não vá alguém pensar que és tão parva como eu, sai directa dos teus dedos. Afinal, quem pensas iludir com esta espécie de truques?

A bonomia dos seus traços

e as asas que benignamente lhe recortam a figura fazem dele o meu anjo de eleição. Sei que me guarda atentamente desde o dia em que nasci, que me protege a própria sombra, não vá a morte entrar por ela e subir-me ao coração e seria complicado retomar-lhe as pulsações depois do susto, e que me vela, sentado aos pés da minha cama durante as noites em que o vento insiste em sacudir-me os ossos a propósito de nada. Já quando o céu está mais ameno, sem sinais de tempestade, instala-se à cabeceira e sinto que a aura me ilumina o sono. Não é um anjo loiro, como seria de supor, ou como todos imaginam, e sempre o achei feito à medida da atenção que dedico a estas coisas. Por isso tive, e desde cedo, um amplo lugar de fé onde ele sabiamente se instalou para cumprir a protecção que me dedica. E assim podemos respeitar-nos um ao outro. Porque não nos invadimos, não nos desacreditamos, e só nos vemos ao relento, quando vamos de mãos dadas passear pelos pinhais da minha infância, seguindo as estrelas como se fossem caminhos, e ele me fala do céu. Respondo-lhe sempre em terra - é a minha condição - mas nem assim ele me nega ou me suprime o eterno azul de Deus e a conversa, que vamos tecendo aos poucos, cada um na sua língua, permite-me acrescentar uma infinita dimensão à minha vida. Já a ele é mais a pele o que o fascina, a minha pele onde gosta de pousar e de sorrir e que, segundo diz, o faz sentir-se menos anjo e mais humano e lhe permite acumular todos os gestos transitórios através dos quais me exprimo. Sei que vamos ficar juntos para sempre, ainda que para sempre, para mim que sou daqui, pareça imenso. Mas tenho vindo, com o tempo, a perceber que a eternidade é como o mar: subimos para cima dela e logo se derrama em nós, serenamente afastando-nos das margens e das praias e da pele e das pessoas para nos envolver em água. Ficamos então sem peso, benignamente abrindo os braços que não temos e vogando entre arquipélagos. Não somos anjos, mas a luz clara de Deus persiste em nós. E nós nela. Eternamente.

Partias

levando a cor azul do mar contigo e o seu rumor de conchas junto às cordas da guitarra, convencido de que assim a cidade não te engoliria e que terias um refúgio a servir-te de paisagem e uma orquestra que à tardinha tocaria em tua honra. Mas foi tão pesado o chumbo que encontraste à tua espera que logo a cor azul do mar ficou parda e tingida de cimento. Pouco depois foram as conchas, abatidas pelo frémito dos prédios e sem forças para as canções que embalavam os teus sonhos. E então, ao fim do dia, ataste as cordas da guitarra às duas mãos, acreditando dessa forma que guardavas cada um dos seus acordes para o teu regresso à ilha, e aceitaste a tua triste condição de urbanidade. Já lá vão anos e nunca mais voltaste a casa.

02 julho 2005

Gonçalo,

ela anda aí!

Exma. Senhora,

Depois de uma leitura atenta do seu blogue «conta-me tudo outra vez» - e do outro anterior que consta em link ali na coluna ao lado, «conta-me tudo» - constatei que sofre, seguramente, de várias perturbações. Nomeadamente, de uma perturbação de personalidade, que creio seja dupla, ou mesmo tripla, embora não seja de excluir um quadro de esquizofrenia patológica, onde registei a ocorrência de visões e alguns ataques de histeria. Nessas condições, e como certamente compreende, não posso permitir que continue a ludibriar gente inocente que, com a melhor das intenções, aqui vem dar, dando afinal de caras com uma louca alucinada. Acredito, além do mais, que a total ausência de juízo que revela através da sua escrita aponta, entre outras coisas, para um pré-estado de demência que, se não se atalhar a tempo, irá mergulhá-la numa confusão mental irrecuperável. Por tudo isto, e porque, confesso, me agradaria estudar o seu caso mais a fundo, tomei a decisão de a internar.
Assim, estarei em sua casa amanhã cedo, munido de camisa de forças e calmantes - já prevendo que poderá não querer colaborar - e eu próprio a acompanharei às instalações onde sugiro que fique a repousar durante uns tempos.
Certo de que estou a fazer o melhor que sei e posso pela sua felicidade, subscrevo-me atentamente,

Miguel Bombarda

01 julho 2005

Depois do rotundíssimo falhanço

do cunhado, permaneci naquela minha triste condição de amálgama enfiada num armário bolorento em casa do homem do lixo. De vez em quando, ele visitava-me. Tirava-me para fora, abria o saco, e tentava consolar-me
não tarda nada e estás outra vez nos trinques, pá!
prometia-me em surdina
vais ver, vais ficar linda! boazona comó milho
e arrumava-me outra vez, depois de fechar o saco, não sei bem se com medo que eu fugisse ou se do quê.
Um dia, numa quinta-feira à tarde, tirou-me do armário e esclareceu-me
é hoje, miúda, é hoje que te vamos pôr nos trinques!
e saiu comigo porta fora, a balançar-me para trás e para a frente como se dentro do saco não estivesse a boazona com quem sabia que sonhava há muitas noites, mas uma espécie de alforreca peganhenta e azulada.
Ao fim de meia hora, mais ou menos, entrámos numa loja esconsa e mal iluminada. Seguro do que fazia, pôs-me em cima do balcão e ordenou ao funcionário
enche-me aqui a miúda, pá!
O funcionário, um tipo pálido e suado com borbulhas purulentas, revirou-me várias vezes, olhou-me primeiro de um lado, olhou-me depois do outro, limpou o suor da testa e coçou uma borbulha e, mais pálido ainda do que estava quando entrámos, perguntou
o amigo quer que eu lhe encha esta alforreca, é isso?!
não, pá, não foi isso que eu disse!
nesse caso, foi o quê?
eu pedi-te que me enchesse a miúda!
ah! então isto é uma miúda...
e tornou a mirar-me e a revirar-me
uma gaja! quem diria?! posso abrir?
e, enojado, olhou-me primeiro de um lado, olhou-me depois do outro e apalpou-me sem pudor
que rica gaja! onde é que a foi desencantar?!
pá, isso agora não interessa! o que eu quero é que a enchas!
Nessa altura percebi onde é que estava. Sem querer, o funcionário, ao tocar-me sem pudor, tinha-me posto um dos olhos rente ao plástico e, como este era transparente, dava para ver o ambiente à minha volta. E vi então, penduradas na parede, uma série de bonecas insufláveis de sutiã e cuecas e com muito mau aspecto. Fiquei de tal maneira amargurada que, por momentos, desejei permanecer uma alforreca para sempre, mas era tarde demais. Com cuidado, e muito mais pudor que o outro, o homem do lixo estava a tirar-me do saco e a repetir num tom zangado
não ouviste o que é que eu disse? quero que a enchas, pá, assim como àquelas na parede!
Depois de me remexerem toda, de me virarem para cima e para baixo, de me voltarem para a esquerda e depois para a direita e de eu estar quase a escorregar pelo balcão, o funcionário concluiu
lamento, mas não dá!
Para mim foi um alívio, mas o homem do lixo não se deu por satisfeito e voltou a repetir, separando as palavras
eu disse que quero que tu enchas essa gaja, pá! queres que fale mais devagar?!
ó amigo! mas a gaja não tem pipo! como é que quer que eu a encha?!
Sem mais conversas desta vez, voltei para dentro do saco. Confesso que preferia assim! Uma gaja como eu lá podia ter um pipo!
era só o que faltava!
disse o homem
era só o que faltava...
pensei eu
e, passado meia hora, lá recolhi ao armário, ainda a pensar no pipo
ora, ora! era só o que faltava! uma gaja como eu...

A minha mãe

entrou-me por aqui adentro aos gritos
a menninna por accaso já pensou em fazzer alggo mais útil do que andar só a esccrever parvoíces commo estas?!
mãe, please
disse eu, que sei que ela é sensível quando lhe falam em estrangeiro
não grite dessa maneira! o que é que as pessoas vão pensar a seu respeito?!
a mennina não tem a noção das tristísssssimas figguras que tem feitto ultimamentte, pois não?! e ponha-me a grittar direito que istto assim não esttá com nadda...
mãe, por favor, vamos conversar para outro lado! venha
e empurrei-a levemente
venha lá, vamos para ali...
vammos para alli o tanas! que o que eu quero é que todda a gentte saiba a doidda que a mennina é... e ponha-me a grittar direitto, não ouviu?!
mãe, se a mãe não parar de gritar a bem neste momento, vai parar de gritar a mal não tarda nada, que eu mudo o tipo de letra de huge para normal size e acabo de uma vez com esta cena deplorável...
ah, ah! então experimentte, experimentte que eu quero ver! de huge para normal size, como se fosse capaz...
mãe, páre de gritar! é a última vez que a aviso... se não parar agora, ponho-a a sussurrar em tiny! mas que cena mais insólita! e ainda dizem que não há nada de novo nos blogues...
dizzem o quê?!
pronto, agora chega! chega! acabou! saia daqui ou não sei o que é que faço!
prontto, prontto!, não se irrite...
o quê?
não se irritte, vou-me embora...
ó mãe... não oiço nada! o que é que foi?
eu disse: vou-me embbora, bollas! não era isso que queria?!
ok, ok... mas não precisa é de gritar dessa maneira! irra! que cena mais insólita!

Uma das raras qualidades

que possuo é o exercício de auto-crítica. É verdade que nem sempre o trago à esfera pública e que o pratico, na maior parte dos dias, em privado. Seja como for, é suficiente para me dotar de uma elasticidade considerável e é graças a ele que sou capaz de detectar os meus buracos negros, esforçando-me, para lá do evidente, não só por os compreender, como - e sobretudo - por os deixar para trás. Mas ninguém vive apenas do seu lado luminoso e eu não sou excepção à regra. Saber, exactamente, onde sou intolerante ou em que aspectos é que a inveja me carcome não me torna indulgente nem me redime de continuar a cobiçar o que não tenho (e queria ter). Da mesma forma, não é por passear pelos meus lugares de sombra e maldicência, dando-me conta dos contornos imprecisos dos meus actos ou do gume das palavras, que me torno mais bondosa. E, no entanto, passar a pente fino os vícios e as fraquezas, os defeitos e os erros, as arrogâncias, as vaidades, a própria estupidez a que cedo tantas vezes faz-me perceber melhor a minha natureza humana e ver até que ponto há nela coisas que, provavelmente com o tempo, serei capaz de iluminar.
Mesmo sabendo que no fim da minha vida existirá ainda em mim o que não gostei de ser, e que é suposto morrer sendo-o ainda, exercitei-me. Vi-me ao espelho e descobri-me. Mergulhei nas minhas sombras, conhecendo a escuridão do que não soube transformar. Talvez da próxima vez, quando voltar, repare que um ou dois buracos negros já ficaram para trás. Ou talvez não.

Gonçalo...

olá Sophia! dormiste bem?
gonçalo, onde é que foram parar os comentários do primeiro conta-me tudo?! és um aldrabão, mas é, puseste lá os posts todos (quase... quase todos!), mas comentários é que nem vê-los! é que nem unzinho para amostra! porra, pá, assim não dá! assim até vai parecer que ninguém lá apareceu!... e tu sabes muito bem que, a certa altura, aquilo estava cheiiiiinho de comentários!
ai estava?!
pois estava! não te faças de parvo!
e diziam o quê? «excelente post, como sempre?»
não!
então... não interessavam para nada!

Fico tão emocionada

quando espreito blogues que se empenham, com todas as forças que têm, em acérrimas polémicas. Blogues sérios - muito sérios e à séria - que assumem posições face aos mais complexos temas, muito liberais às vezes, outras mais conservadores, alguns fundamentalistas, mas todos sempre com a profunda convicção de que estão a prestar serviço público e a contribuir para enriquecer o intelecto da nação, essa «massa» colectiva de neurónios que, nos blogues, se agita ao correr dos posts. E depois gosto do séquito de admiradores magníficos, diria quase serviçais, que vem postrar-se de joelhos nas caixas de comentários, agradecendo a luz ao criador e as suas palavras sábias, gosto do lugar comum
«excelente post, como sempre!»
repetido até à náusea
«excelente post, como sempre!»
«excelente post, como sempre!»
«excelente post, como sempre!»
e gosto do criador, que resplandece e cresce em frente ao seu próprio espelho mágico, e que agracia a sua corte com modéstia
«mas que exagero!»
«também não é tanto assim...»
«faço o que posso...»
No extremo oposto, também gosto das hordas discordantes, dos que questionam, com mais ou menos fundamento, a opinião do blogger-fundador, e deste a voltar à carga, e das hordas ao ataque, e do blogger à defesa, e da caixa a transbordar
87 comentários
e vai-se a ver, vai-se a ler cada um destes extensos oitenta e sete
88
89
95
comentários com paciência e atenção, percebendo o que existe atrás da esgrima de palavras e quais são as posições que cada um ocupa nelas e, nessas guerrinhas de plasma, a ilusão dos assuntos lineares quase nos tira a percepção do espaço aberto, ao fechar-nos num rectângulo.
E é por isso que, quando me dá para espreitar blogues assim, muito sérios e à séria, que se empenham em acérrimas polémicas, e que vejo mais ou menos tudo a ser disparado pelas teclas, sempre tudo direitinho, uma letra atrás da outra, as frases compondo rectas, me emociono. Porque, fora do plasma, e longe das palavras rectas, o mundo e todas as coisas que o compõem - factos, leis, opiniões, polémicas, paisagens, histórias, decisões, seja o que for - são intrincadas linhas curvas. Não começam nem terminam em si próprias, o que faz com que tudo se relativize e esbata... Não há uma cor pura, mas mais de mil tonalidades...

30 junho 2005

De maneira que,

depois de ter andado a noite inteira às voltas e a passar de colo em colo, fui levada ao tal cunhado que era um entendido em plásticos. Assim que o vi, desconfiei. Não da aparência, embora também ela deixasse um pouco a desejar, mas que fosse competente a ponto de saber devolver-me as curvas certas e os traços necessários para me fazer voltar àquilo que eu era: uma giraça boazona e desprendida, com um belo par de mamas e um cu rijo, barriga intacta, madeixas loiras no cabelo e olhos verdes, pestanudos, pernas esguias, torneadas, sem ponta de celulite, a pele sardenta e, é evidente, um ar de parva insuportável! Era precisamente neste meu ar de parva insuportável, e devidamente inconfundível para que não me tomassem por qualquer outra entre as milhares que p'raí há, que duvidava da mestria do cunhado. Seria ele alguma vez capaz de o recuperar, tendo como única referência aquela estupidez boçal das miúdas lá do bairro? É que uma coisa é ser-se parva, e outra, muito diferente, é exibir um ar de azêmola...
Infelizmente, a desconfiança de que era um incapaz para todo o tipo de tarefas confirmou-se muito antes de o cunhado me tratar do ar de parva, pois assim que abriu o saco e que me viu, acomodou-se ao que sabia sem nenhum esforço acrescido e exclamou
ena pá!, a merda da garrafa ficou toda delambida!...
O outro ainda lhe disse
mais respeitinho que isso aí é uma gaja, pá!, não é uma garrafa...
mas o encolher dos ombros, o ar de gozo e o assobio que assoprou por entre os dentes tiraram-me todas as dúvidas que ainda pudesse ter. Valeu-me o homem do lixo que, encostando-me ao ouvido, prometeu
não se aflija, minha linda, que havemos de encontrar quem a conserte
e levou-me para dentro.

Sophia...

hum?
olha ali para o lado!
hã?!
ali, para a tua direita...
gonçaloooooo... o meu conta-me tudo! you're a genious baby!!
não eras tu que não sabias falar estrangeiro?!
é que estou emocionada, pá! saiu-me!...
ah!
és do caraças, pá! obrigada!
de nada! diverte-te!

O Gonçalo

falou-me cedíssimo e excitadíssimo
Sophia, tenho excelentes notícias!
e eu, ainda meio a dormir,
a sério? quais são?
imagina tu que a outra, sabes?, a outra? a gaja de carne...
sim, o que é que tem?
pois olha que ela pode ser precipitada, mas não é parva!
grande novidade, gonçalo! é claro que não! a parva sou eu!...
Sophia, ouve bem: a gaja tem um back up do outro blogue...
um quê?
um back up!
ai gonçalo, não fales em estrangeiro, já sabes que comigo não dá!
um back up, Sophia, quer dizer que ela guardou tudo o que lá estava escrito, apesar de o blogue já não andar por aí, à distância de um clique, de um link, de seja o que for...
ah!... e então?
então, a minha ideia é reactivar uma cópia da tua vidinha...
bem, gonçalo, mas achas que isso é possível?!
acho que sim! perco um ou dois dias a fazer copy paste
a fazer o quê?
deixa! o que interessa é que até ao fim de semana vais ter, ali na coluna da direita, um link para a tua vidinha...
e se ela descobre e apaga tudo outra vez?
ela é precipitada, mas não é parva, Sophia!
pois é... a parva sou eu! obrigada gonçalo! agora vou dormir mais um bocadinho...

Grande Gonçalo! Vou poder ter a minha vidinha de volta, nem acredito!

29 junho 2005

2 comments

anonymous said...
deves achar que papo a tua história!...
balelas, filha! o que tu és é uma fala
barato, é o que é! deixa que a outra
te apanhe e a ver se não és recambiada,
desta vez para uma ilha deserta
no meio de nenhures que te vai dar cabo
desse plasma de merda para sempre!

violeta said...
querida sophia, estou impressionadíssima
com a tua história! como é que pode haver
gente tão má? ainda bem que os senhores
do lixo perceberam que eras tu e te ajudaram.
muitos beijinhos!

Bom,

então foi assim. Se bem se lembram, houve um dia em que ela, a gaja de carne, agarrou no saco comigo lá dentro feita em papas, literalmente, e o atirou para o contentor sem piedade nem complacência (a pena que eu tenho de não poder recuperar tudo o que foi escrito nesse outro conta-me tudo, era muito mais fácil apanhar o fio à meada, mas pronto!, paciência...) Ao princípio, o cheiro nauseabundo deu-me vontade de vomitar, mas depois percebi que, mesmo que o quisesse fazer, não tinha órgãos capazes de dar vazão àquela náusea e acalmei-me. Respirei fundo, pensei que, se Deus quisesse, ia conseguir sair dali para fora e encontrar alguém compreensivo que me salvasse e comecei a rezar. A certa altura, ouvi o barulho do camião que vinha fazer a recolha do lixo e resolvi dar tudo por tudo. Com as forças que me sobravam, agitei-me dentro do saco - tarefa díficil para uma pessoa normal, quanto mais para uma amálgama de plasma! Mexia-me de um lado para o outro e imagino que, quem resolvesse espreitar para dentro do saco, achasse que eu era uma alforreca nojenta e pegajosa, daquelas que nos deixam a pele cheia de borbulhas quando lhes tocamos. E, no entanto, não foi isso que aconteceu. Houve, de facto, alguém - um dos homens do lixo, quem mais?! - que espreitou para dentro do saco, calculo que assustado com os seus (meus) movimentos, e que era tão esperto que percebeu logo o que se estava a passar
eh pá! está aqui uma gaja!
disse ele. Como é que ele percebeu tão rapidamente que eu tinha sido uma gaja, não sei dizer. Mas sei que os outros dois vieram logo espreitar também para dentro do saco e que concordaram com ele.
pois está! está aqui uma gaja em muito mau estado!
disseram eles. Percebi que estava safa e só me apeteceu ter outra vez braços e boca para lhes dar palmadinhas nas costas e louvar-lhes a inteligência, mas, até chegar a esse ponto, ainda ia ter de passar por muitas coisas. Bom, o que interessa é que os homens do lixo pegaram em mim, ou no saco, com desvelo (foi desvelo, sim, lembro-me bem) e andaram o resto da noite às voltas comigo no colo, enquanto faziam a recolha do resto do lixo pela cidade. No fim do turno, foi um sarilho para decidir qual deles é que ficava comigo. Acabou por ser o primeiro, o que me tinha encontrado, alegando que tinha um cunhado que trabalhava numa fábrica de plásticos que, de certezinha, ia poder ajudar-me...

Estou, Gonçalo?

sim, quem fala?
sou eu, gonçalo...
eu quem?
eu, gonçalo, eu...
sophia?!
sim!!!
como é que é possível?! tu não tinhas derretido, pá?!
é, é uma longa história, gonçalo! depois conto-te...
e ela já sabe?
ela quem?!
ela... tu sabes! a outra...
ah! ela? acho que não, mas estou mortinha para que descubra! vai ficar cá com um melão!
ai vai, vai...
olha, queria pedir-te um favor...
diz lá...
há alguma forma de eu recuperar os posts que ela apagou?
hummm... não me parece!
aquela cabra apagou tudo, gonçalo! o que era dela, e o que não era dela!
eu sei...
e não há mesmo maneira nenhuma de pôr isso tudo aqui outra vez?
acho que não sophia, mas vou averiguar...
ok. liga-me quando souberes!
está combinado!
beijinhos...
beijinhos, sophia! é bom ter-te de volta!...

1 comment

violeta said...
ai sophia, que estou tão emocionada!
voltaste, amiga, que bom, que bom!
como vai tudo? a tua mãe está melhorzinha?
e tu estás mesmo boa? muitos beijinhos

Estou aqui que nem posso

para ver a cara dela! Quando a parvalhona descobrir que afinal o blog ressuscitou, acho que vai morrer de susto! Com o mesmo nome e tudo... isto é que é habilidade, hã?! Só tenho pena de que alguns dos posts mais brilhantes que escrevi sobre a minha patética vidinha tenham sido engolidos pelo «delete», esse assassino. Alguém faz ideia se os posso recuperar?! Aí é que ela morria mesmo, a anormal! Sim, porque eu sou precipitada e tonta, isso é verdade, mas ela é que tem os dedos, ora bolas! Quem carregou na tecla do delete foi ela, não fui eu. Que eu, se bem se lembram, estava toda retorcida e amolgada nessa altura, a atrofiar dentro de um saco de plástico que ela despejou, sem piedade, no contentor do lixo! Talvez deva então começar por vos contar quem é que me tirou dali e como foi difícil recuperar para chegar até aqui... É uma longa história, por isso, preparem-se para ouvir.

Pois é,

a precipitação nunca me levou por bons caminhos. Não fosse isso, e a minha vidinha teria podido continuar sem sobressaltos écran fora, leve e despreocupada, como sempre imaginei. Não fosse ela, a gaja de carne e osso que julgou poder pôr e dispor do meu plasma por pura e simples diversão, e eu não teria feito a tristíssima figura de me derreter ao sol, numa longíngua ilha do Pacífico. O que vale é que o tempo cura tudo. Até um monte de plasma derretido dentro de um saco de plástico atirado para o lixo. A prova disso está aqui, à frente dos vossos olhos... Agora só me falta ver se ela se atreve a mandar-me outra vez não sei para onde... A parvalhona!...