28 abril 2006
Era muito mais divertido
quando ficava à janela a ver-te passar, ou mesmo quando ficava do lado de dentro, ao teu lado, e te seguia à medida que ias jorrando dos dedos os teus disparates, alguns faziam-me rir, outros nem tanto, mas sempre era melhor do que agora, eu ao teu lado e tu quieta, muito mais quieta, muito mais triste, eu do lado de dentro das tuas mãos e a vê-las tremer, desistir. Ou então à janela. Eu amparando o teu corpo dobrado, as portadas fechadas, a rua onde já não passa ninguém, talvez me morras nos braços um destes dias e tenha de ir enterrar-te junto dos pássaros, lembras-te? Talvez um destes dias te agarre nas mãos e repare que já não sabem voar. Poderei nessa altura passar outra vez para o teu lado de dentro e de novo abrir a janela, quem sabe sorrir, ver passar as pessoas, as letras, um rumor de palavras calcorreando os passeios e a memória da tua voz seguindo-lhe o rasto, ou não fosse a morte a metáfora perfeita dos dias que ainda nos faltam cumprir.
Como se recomeçar
fosse voltar ao princípio e não é. Como se a escrita fosse tangível daqui e eu debruçada a vê-la cair sem poder fazer nada ou mexer-me. Eu entre a inércia e o espanto a medir o abismo que de há uns anos para cá me separou das palavras
para sempre
entre o tédio e o pranto a ajuizar a distância da pele à metáfora e é grande, é imensa, é brutal e estou tão cansada. Eu a ser empurrada e a reparar que é por isso, é só por isso, que me mantenho em andamento embora não saiba lá muito bem para onde vou nem porquê e uma pilha de livros à espera que os meus dedos se excedam e escrevam, enfim, o que lhes peço. Mas nunca escrevem, nunca se excedem, há anos que os tenho parados nas mãos, já quase não fazem parte de nada, os meus dedos, e às vezes ficam dormentes. Como se recomeçar fosse, de alguma forma, o sol de vermelho no limbo, o horizonte e a luz e o mundo contagiados de sangue e não é, nunca foi. Não é suposto doer e parece que é disso que não me convenço, não é suposto doer. Não é o sangue que vejo nascer todos os dias da minha janela, pois não.
para sempre
entre o tédio e o pranto a ajuizar a distância da pele à metáfora e é grande, é imensa, é brutal e estou tão cansada. Eu a ser empurrada e a reparar que é por isso, é só por isso, que me mantenho em andamento embora não saiba lá muito bem para onde vou nem porquê e uma pilha de livros à espera que os meus dedos se excedam e escrevam, enfim, o que lhes peço. Mas nunca escrevem, nunca se excedem, há anos que os tenho parados nas mãos, já quase não fazem parte de nada, os meus dedos, e às vezes ficam dormentes. Como se recomeçar fosse, de alguma forma, o sol de vermelho no limbo, o horizonte e a luz e o mundo contagiados de sangue e não é, nunca foi. Não é suposto doer e parece que é disso que não me convenço, não é suposto doer. Não é o sangue que vejo nascer todos os dias da minha janela, pois não.
Sophia
tantos meses depois e ainda me viro quando alguém diz o meu nome
Sophia?
ou quando o escrevo
Sophia
como se fosse de facto o meu nome, e não é.
Sophia?
ou quando o escrevo
Sophia
como se fosse de facto o meu nome, e não é.
Num dia como outro qualquer
de calor, mas muitos anos depois
não exageres, foram só alguns meses
meses, ok, num dia como outro qualquer de calor mas muitos meses depois, quantos não sei, não os conto, prefiro não contar o tempo que não posso reter, revejo-me ao espelho. É o mesmo rectângulo, é o mesmo néon, o ecrã tal e qual como o deixei há meses atrás, pálido, o mesmo template,
ia dizer : a mesma merda de sempre
mas ainda não decidi se me quero ver tal e qual como sou
a mesma de sempre
ou se em vez disso me invento,
outra vez
se me mostro ou me escondo atrás da pele que não tenho,
plasma, não era
se me deixo levar pelo chumbo das letras, pelo barulho dos tiros a sair-me a custo dos dedos
das teclas
pelo barulho das teclas a sair-me às golfadas do peito ou se, em vez disso, me deito quieta e à sombra à hora da sesta ou, ainda, se sonho.
Por enquanto
e é tudo
e é muito, sei que num dia como outro qualquer de calor me acendo à espera que a escrita me traga o alento que não encontro na vida e é tudo
e é muito
até porque já se passou muito tempo e há coisas de que já não me lembro, coisas que preferia esquecer, muitas coisas das quais ando desesperadamente à procura para depois lhes poder chamar nomes, acho que deve ser isso.
não exageres, foram só alguns meses
meses, ok, num dia como outro qualquer de calor mas muitos meses depois, quantos não sei, não os conto, prefiro não contar o tempo que não posso reter, revejo-me ao espelho. É o mesmo rectângulo, é o mesmo néon, o ecrã tal e qual como o deixei há meses atrás, pálido, o mesmo template,
ia dizer : a mesma merda de sempre
mas ainda não decidi se me quero ver tal e qual como sou
a mesma de sempre
ou se em vez disso me invento,
outra vez
se me mostro ou me escondo atrás da pele que não tenho,
plasma, não era
se me deixo levar pelo chumbo das letras, pelo barulho dos tiros a sair-me a custo dos dedos
das teclas
pelo barulho das teclas a sair-me às golfadas do peito ou se, em vez disso, me deito quieta e à sombra à hora da sesta ou, ainda, se sonho.
Por enquanto
e é tudo
e é muito, sei que num dia como outro qualquer de calor me acendo à espera que a escrita me traga o alento que não encontro na vida e é tudo
e é muito
até porque já se passou muito tempo e há coisas de que já não me lembro, coisas que preferia esquecer, muitas coisas das quais ando desesperadamente à procura para depois lhes poder chamar nomes, acho que deve ser isso.
25 setembro 2005
As minhas tias
que se ainda fossem vivas e soubessem o que fiz com a irmã me perdoavam, acho eu, compreendiam, eu, num acesso de maldade aquela tarde a entrar pelo jardim como um veneno e a exilá-la brutalmente do amor, a despejá-la da vivenda de Benfica ao ficar subitamente saturada dos achaques, da velhice, dos enjoos que lhe subiam à garganta a ver montras em Algés e, de repente, estatelada no passeio sem mais nem menos, domingo não, domingo sim e era um estorvo de extra-sístoles na missa do meio dia, um chazinho, uma canseira escada abaixo e escada acima para velá-la à cabeceira, o pulso frágil mas teimoso, bate-pára, bate-pára, bate-bate
que parasse de uma vez e me deixasse!
eu cansada de repente do transtorno e do tempo que me escapa a pensá-la rodeada por quilómetros de capim em vez de relva, a azedar como os limões que apodrecem pelo chão, as asas turvas dos pardais em voos caducos sobre o rio, anjos de mármore pelo jardim ao deus dará de asas partidas, andorinhas esbaforidas, o lilás abrasador das buganvílias, as hortênsias moribundas rente ao muro, sorrisos murchos, dentaduras, palidez, rugas de cera derretendo ao abandono, um rectângulo de bafio, duas figueiras depenadas, ela magríssima acenando-me, a promessa
adeusinho qualquer dia venho vê-la
e a minha tia a saber perfeitamente que não vinha, nunca mais a visitava, ela que se acomodasse para morrer ou o que quisesse e que me deixasse em paz, que declinasse a meio da tarde nas cadeiras, que cedesse às extra-sístoles e ao reumático
chás de tília escada acima, escada abaixo
que esquecesse a cama larga de solteira e a luz a entrar-lhe pelo quarto de manhã e a trocasse pela enxerga de bafio e pela penumbra, o pau-santo pelo caruncho da madeira, que trocasse a solidão das noites longas de Benfica por fantasmas a rasar-lhe a cabeceira , pelo menos sempre tinha companhia, alguém que podia acudir-lhe se caísse ou chamar-lhe uma ambulância se morresse, um sobrinho se eu deixasse, já agora um tiro no peito e acabava-se com isto, o gatilho encostado ao coração, era o segundo, não custava mesmo nada e ela ainda num aceno, encostada ao portãozinho
e pareceu-me que sorria, percebia julgo eu, perdoava-me este excesso de palavras, o exílio de Benfica, o acesso de maldade, o ataque de rancor se calhar nem era isso, e então desaparecia de repente numa névoa de poeira luminosa mas devia ser a curva, só podia ser a curva, era a curva de certeza, a rua estreita alargando-se outra vez e o lar de velhos finalmente para trás, a minha tia até que enfim sem dar trabalho confinada ao patiozinho de esqueletos, ao paraíso enganador mas repousante apesar da decadência, até que enfim sem me partir o coração de a ver sozinha sem sobrinhos e sem gatos sem irmãs e sem frasquinhos de compota sem agulhas de crochet e sem bolachas no armário sem almoços ao domingo, a gaveta dos lençóis com cheiro a azedo, o periquito estrangulado na gaiola, até que enfim sem quilómetros de jardim erguendo um cerco à sua volta, outra boneca de poeira que voltaríamos a pôr noutra caixa sem lacinhos e não queria, ali ao menos poderia ficar viva até nos esquecermos dela, não estaríamos presentes para assistir à derrocada de extra-sístoles a calar-lhe o coração um dia a sério
bate-pára bate-pára pára-pára
um cortejo de sobrinhos escada acima, o médico, a malinha, a morte e a certidão pondo fim à expectativa de que fosse só um susto, um sustozinho apenas isso, não teríamos de olhar a magreza do seu corpo já sem fôlego e o pulso sem sinal, paradíssimo, de a velar a noite inteira e ela inerte, as rugas como a cera derretendo ao som do choro e a minha mãe mesmo ao meu lado muito antes do enterro
- Endoideceste! Como é que tu foste capaz de fazer isto à tua tia?
o lar de velhos finalmente já muito para além da curva, agora sim, posso dormir sem pensar na solidão da minha tia e na dor que a sua morte me provoca.
que parasse de uma vez e me deixasse!
eu cansada de repente do transtorno e do tempo que me escapa a pensá-la rodeada por quilómetros de capim em vez de relva, a azedar como os limões que apodrecem pelo chão, as asas turvas dos pardais em voos caducos sobre o rio, anjos de mármore pelo jardim ao deus dará de asas partidas, andorinhas esbaforidas, o lilás abrasador das buganvílias, as hortênsias moribundas rente ao muro, sorrisos murchos, dentaduras, palidez, rugas de cera derretendo ao abandono, um rectângulo de bafio, duas figueiras depenadas, ela magríssima acenando-me, a promessa
adeusinho qualquer dia venho vê-la
e a minha tia a saber perfeitamente que não vinha, nunca mais a visitava, ela que se acomodasse para morrer ou o que quisesse e que me deixasse em paz, que declinasse a meio da tarde nas cadeiras, que cedesse às extra-sístoles e ao reumático
chás de tília escada acima, escada abaixo
que esquecesse a cama larga de solteira e a luz a entrar-lhe pelo quarto de manhã e a trocasse pela enxerga de bafio e pela penumbra, o pau-santo pelo caruncho da madeira, que trocasse a solidão das noites longas de Benfica por fantasmas a rasar-lhe a cabeceira , pelo menos sempre tinha companhia, alguém que podia acudir-lhe se caísse ou chamar-lhe uma ambulância se morresse, um sobrinho se eu deixasse, já agora um tiro no peito e acabava-se com isto, o gatilho encostado ao coração, era o segundo, não custava mesmo nada e ela ainda num aceno, encostada ao portãozinho
e pareceu-me que sorria, percebia julgo eu, perdoava-me este excesso de palavras, o exílio de Benfica, o acesso de maldade, o ataque de rancor se calhar nem era isso, e então desaparecia de repente numa névoa de poeira luminosa mas devia ser a curva, só podia ser a curva, era a curva de certeza, a rua estreita alargando-se outra vez e o lar de velhos finalmente para trás, a minha tia até que enfim sem dar trabalho confinada ao patiozinho de esqueletos, ao paraíso enganador mas repousante apesar da decadência, até que enfim sem me partir o coração de a ver sozinha sem sobrinhos e sem gatos sem irmãs e sem frasquinhos de compota sem agulhas de crochet e sem bolachas no armário sem almoços ao domingo, a gaveta dos lençóis com cheiro a azedo, o periquito estrangulado na gaiola, até que enfim sem quilómetros de jardim erguendo um cerco à sua volta, outra boneca de poeira que voltaríamos a pôr noutra caixa sem lacinhos e não queria, ali ao menos poderia ficar viva até nos esquecermos dela, não estaríamos presentes para assistir à derrocada de extra-sístoles a calar-lhe o coração um dia a sério
bate-pára bate-pára pára-pára
um cortejo de sobrinhos escada acima, o médico, a malinha, a morte e a certidão pondo fim à expectativa de que fosse só um susto, um sustozinho apenas isso, não teríamos de olhar a magreza do seu corpo já sem fôlego e o pulso sem sinal, paradíssimo, de a velar a noite inteira e ela inerte, as rugas como a cera derretendo ao som do choro e a minha mãe mesmo ao meu lado muito antes do enterro
- Endoideceste! Como é que tu foste capaz de fazer isto à tua tia?
o lar de velhos finalmente já muito para além da curva, agora sim, posso dormir sem pensar na solidão da minha tia e na dor que a sua morte me provoca.
18 setembro 2005
Vejo-a daqui
sentada à minha frente, disparando à queima roupa a pólvora seca das palavras que não chegam a atingir nenhum sentido e faz-me pena. Quer ser uma, quer ser outra, afinal é sempre a mesma, é pouco ou nada mais que ela e eu,
ela?
eu, eu que a vejo ali sentada à minha frente e que me antecipo aos dedos antes que toquem nas teclas, tenho pena. Que me atire
que se atire
aqui para dentro quando aqui já não há nada a prendê-la.
ela?
eu, eu que a vejo ali sentada à minha frente e que me antecipo aos dedos antes que toquem nas teclas, tenho pena. Que me atire
que se atire
aqui para dentro quando aqui já não há nada a prendê-la.
18 agosto 2005
Não vale
mentir, mas tudo o que sobrar para além dessa promessa pode dar-se à invenção ou converter-se à fantasia, amansar-se em água doce ou transmutar-se, pelo dom da alquimia, em amor puro
eu sei que existe
e depois também não vale
agora a pena
procurar as palavras preciosas com que as emoções se enfeitam, para quê, se as sentimos cruamente sobre a pele, única forma de saber se são ou não são autênticas, não vale fingir, pretender que os anjos mais não são do que metáforas
não são
que as suas asas são só isso, quatro letras, abertas ou fechadas, sempre pela mesma ordem
quatro letras a formar uma palavra
não vale fazer de conta que não sou, que volto a ser, que nunca fui, que tenho um nome, não vale de nada, o esforço é outro, o rumo é certo, ainda é o mesmo
o dos pássaros na estação do desembarque
a escrita é só um artifício, um passatempo, uma forma de entreter o movimento dos meus dedos,
ou não é
não vale mentir
eu sei que existe
e depois também não vale
agora a pena
procurar as palavras preciosas com que as emoções se enfeitam, para quê, se as sentimos cruamente sobre a pele, única forma de saber se são ou não são autênticas, não vale fingir, pretender que os anjos mais não são do que metáforas
não são
que as suas asas são só isso, quatro letras, abertas ou fechadas, sempre pela mesma ordem
quatro letras a formar uma palavra
não vale fazer de conta que não sou, que volto a ser, que nunca fui, que tenho um nome, não vale de nada, o esforço é outro, o rumo é certo, ainda é o mesmo
o dos pássaros na estação do desembarque
a escrita é só um artifício, um passatempo, uma forma de entreter o movimento dos meus dedos,
ou não é
não vale mentir
A lápis,
retomei o fim da linha.
Não era mais do que um esboço a carvão traçado à pressa na estação do desembarque,
saio aqui
deserta ainda àquela hora da manhã e eu dando-me conta de que não tinha para onde ir
daí o lápis
daí o risco cor de cinza desenhado numa folha que pousei sobre os joelhos
saio?
não saio
um vago trilho de viagem que rumou directo ao céu antes mesmo de afinar-lhe a direcção e a folha azulando-se nas margens logo abaixo dos meus dedos, tão perto que julguei que o próprio Deus se colava à sua cor
à minha pele
o lápis transformado em aguarela e transportei o céu nas mãos.
afinal saio por aqui, quem sabe se não rumo aos pássaros?
o céu inteiro passado a tinta permanente ao meu alcance e uma linha de horizonte a entrar-me pelos olhos
pela alma
e a dizer-me para embarcar
não há fim
não há memória
agora vai
Não era mais do que um esboço a carvão traçado à pressa na estação do desembarque,
saio aqui
deserta ainda àquela hora da manhã e eu dando-me conta de que não tinha para onde ir
daí o lápis
daí o risco cor de cinza desenhado numa folha que pousei sobre os joelhos
saio?
não saio
um vago trilho de viagem que rumou directo ao céu antes mesmo de afinar-lhe a direcção e a folha azulando-se nas margens logo abaixo dos meus dedos, tão perto que julguei que o próprio Deus se colava à sua cor
à minha pele
o lápis transformado em aguarela e transportei o céu nas mãos.
afinal saio por aqui, quem sabe se não rumo aos pássaros?
o céu inteiro passado a tinta permanente ao meu alcance e uma linha de horizonte a entrar-me pelos olhos
pela alma
e a dizer-me para embarcar
não há fim
não há memória
agora vai
31 julho 2005
29 julho 2005
Os pesadelos
ficam no andar de baixo. Lá em cima, levezinhos, estão os sonhos
estão intactos
espreito-os antes de ir dormir sem aquele medo inventado que concebo enquanto escrevo e é o espanto, é a supresa, é a pele orvalhada a descoberto entre os lençóis que me libertam da morte
esse fantasma
e que me dão a noção da felicidade. A vida espraia-se neles, sinto-a pulsar e não há noite em que não vá espiar-lhe a cor, a densidade, assegurar-me que mesmo no escuro cintila e que respiram. Reparo por vezes que cresceram, que os braços sobram na cama, que as pernas estão mais compridas, que os sonhos são lugares maiores, que já não cabem no meu colo como cabiam. Depois percorro-os um a um, peço um desejo
sempre o mesmo
e agradeço.
estão intactos
espreito-os antes de ir dormir sem aquele medo inventado que concebo enquanto escrevo e é o espanto, é a supresa, é a pele orvalhada a descoberto entre os lençóis que me libertam da morte
esse fantasma
e que me dão a noção da felicidade. A vida espraia-se neles, sinto-a pulsar e não há noite em que não vá espiar-lhe a cor, a densidade, assegurar-me que mesmo no escuro cintila e que respiram. Reparo por vezes que cresceram, que os braços sobram na cama, que as pernas estão mais compridas, que os sonhos são lugares maiores, que já não cabem no meu colo como cabiam. Depois percorro-os um a um, peço um desejo
sempre o mesmo
e agradeço.
Chego a ter medo
dos teus olhos quando me sondam no escuro, rumando densos ao meu corpo e envoltos numa penumbra de excessos, maníacos, perversos, querendo possuir-me à força
é isso
então volto-te as costas e nunca adormeço em paz, as retinas que me apontas às costelas e me cingem a cintura de aflições e suores frios, chego a pensar que se atiram aos meus sonhos com a precisão da raiva e que saem disparadas em busca das minhas veias e do sangue que se vai esvair aos poucos e manchar o nosso amor
sinto-o a escorrer por mim
acordo aos gritos e o néctar da manhã, ainda envolta numa bruma, recupera a claridade e reclama a lucidez para a nossa cama
felizmente
reparo que dormes ao meu lado, as tuas pálpebras sombreadas de doçura e fico assim, de frente agora, a pensar se são os teus
os olhos negros que me sondam
ou de um outro que te habita e quando acordas, já sem névoa, a manhã alta e límpida na cama, o amor salvo do sangue, quando acordas e os abres e me olhas descubro que são azuis e se desarmam quando, em paz, rumam aos meus.
é isso
então volto-te as costas e nunca adormeço em paz, as retinas que me apontas às costelas e me cingem a cintura de aflições e suores frios, chego a pensar que se atiram aos meus sonhos com a precisão da raiva e que saem disparadas em busca das minhas veias e do sangue que se vai esvair aos poucos e manchar o nosso amor
sinto-o a escorrer por mim
acordo aos gritos e o néctar da manhã, ainda envolta numa bruma, recupera a claridade e reclama a lucidez para a nossa cama
felizmente
reparo que dormes ao meu lado, as tuas pálpebras sombreadas de doçura e fico assim, de frente agora, a pensar se são os teus
os olhos negros que me sondam
ou de um outro que te habita e quando acordas, já sem névoa, a manhã alta e límpida na cama, o amor salvo do sangue, quando acordas e os abres e me olhas descubro que são azuis e se desarmam quando, em paz, rumam aos meus.
27 julho 2005
Hoje passei pelo teu livro
ia com pressa
não, minto
ia com medo
hoje passei pelo teu livro, ia com medo e por isso entrei sem pressa, dedo ante dedo, olhos de esguelha evitando a tua ausência, um seguindo o outro a custo para poderem prevenir o desalento desfasados que dói menos, por fim os dois semi-abertos e vogando no papel à procura das palavras que alinhavas pelo tom da tua voz e que agora, agora o quê?
agora de novo o medo
sucumbiam ao silêncio, à tua morte
pensei eu
que os teus poemas se teriam diluído numa imensa mancha de água
(chorei tanto)
há tanto tempo que chorava que pensei, juro que pensei, que a tua vida não rimava com mais nada e que morrer, virada a última página, era o epílogo da nossa história de amor. Qual não foi por isso o espanto quando te encontrei intacto, tão vivo ainda que cheguei a sentir-te o coração fora da métrica a bater descompassado, o teu coração soberbo
não não era uma metáfora
eras tu, senti-te o pulso, o alvoroço, a valentia, os teus passos percorrendo a distância que existia entre o papel e os meus braços, os teus versos um a um desenhando a trajectória do meu colo, caindo nele
cabendo em mim
as palavras como sopros e eras tu a respirar, cada som, cada palavra, cada rima eras tu a respirar, não estavas morto, o teu hálito a entrar nos meus ouvidos e agitando os meus cabelos, os teus beijos
eram mornos, eram longos
tal e qual como me lembro a rasar a minha boca, a redundância do teu riso a repetir-me uma e outra e outra vez o tamanho enorme e amplo da alegria, o pleonasmo
faz-me feliz a felicidade
rumando à estrofe imprecisa do meu peito e assim fui percorrendo, já muito menos a custo
já muito menos a medo
dedo ante dedo, olhos abertos, os dois agora atrás de ti, presos a ti, fixos nos teus, os poemas que alinhavas pelo timbre do amor e que rimam, afinal, com a tua vida e fecho o livro, fecho os olhos, fecho o medo. Acabo de perceber que sou capaz de te deter, de te agarrar, de me prender a essa tua engenhosa perfeição de sonhador que transforma a tua morte e a tua ausência, pelo dom das palavras que deixaste, num amor vivo e concreto. Que o meu luto, a minha dor, as manchas de água do meu pranto são em honra do comum mortal que foste, mas que o epílogo do amor
do nosso amor
é o teu riso de poeta, o teu coração soberbo, os teus versos desenhando cada um a trajectória do meu colo, caindo nele, cabendo em mim,
não tenho medo.
não, minto
ia com medo
hoje passei pelo teu livro, ia com medo e por isso entrei sem pressa, dedo ante dedo, olhos de esguelha evitando a tua ausência, um seguindo o outro a custo para poderem prevenir o desalento desfasados que dói menos, por fim os dois semi-abertos e vogando no papel à procura das palavras que alinhavas pelo tom da tua voz e que agora, agora o quê?
agora de novo o medo
sucumbiam ao silêncio, à tua morte
pensei eu
que os teus poemas se teriam diluído numa imensa mancha de água
(chorei tanto)
há tanto tempo que chorava que pensei, juro que pensei, que a tua vida não rimava com mais nada e que morrer, virada a última página, era o epílogo da nossa história de amor. Qual não foi por isso o espanto quando te encontrei intacto, tão vivo ainda que cheguei a sentir-te o coração fora da métrica a bater descompassado, o teu coração soberbo
não não era uma metáfora
eras tu, senti-te o pulso, o alvoroço, a valentia, os teus passos percorrendo a distância que existia entre o papel e os meus braços, os teus versos um a um desenhando a trajectória do meu colo, caindo nele
cabendo em mim
as palavras como sopros e eras tu a respirar, cada som, cada palavra, cada rima eras tu a respirar, não estavas morto, o teu hálito a entrar nos meus ouvidos e agitando os meus cabelos, os teus beijos
eram mornos, eram longos
tal e qual como me lembro a rasar a minha boca, a redundância do teu riso a repetir-me uma e outra e outra vez o tamanho enorme e amplo da alegria, o pleonasmo
faz-me feliz a felicidade
rumando à estrofe imprecisa do meu peito e assim fui percorrendo, já muito menos a custo
já muito menos a medo
dedo ante dedo, olhos abertos, os dois agora atrás de ti, presos a ti, fixos nos teus, os poemas que alinhavas pelo timbre do amor e que rimam, afinal, com a tua vida e fecho o livro, fecho os olhos, fecho o medo. Acabo de perceber que sou capaz de te deter, de te agarrar, de me prender a essa tua engenhosa perfeição de sonhador que transforma a tua morte e a tua ausência, pelo dom das palavras que deixaste, num amor vivo e concreto. Que o meu luto, a minha dor, as manchas de água do meu pranto são em honra do comum mortal que foste, mas que o epílogo do amor
do nosso amor
é o teu riso de poeta, o teu coração soberbo, os teus versos desenhando cada um a trajectória do meu colo, caindo nele, cabendo em mim,
não tenho medo.
22 julho 2005
Livra-te disso,
livra-te disso e quanto mais depressa melhor que até eu me canso quando te olho e te percebo curvada, dobrada sobre ti própria, faz-me impressão, o que queres que te diga?, faz, faz-me impressão, dá-me uma espécie de medo achar que podes cair enquanto te espreitas no fundo do rio que sei muito bem que te espreitas, há dias que ando a espiar-te enquanto te espreitas sabias, os teus olhos rompem a água com fúria que eu sei, atiram-se ao espelho de lodo onde já não reconheces ninguém e puxam-lhe o brilho não é, como se ao fim deste tempo o riso e o espanto subissem à tona, clarividentes, ilesos, como se ao fim deste tempo pudesses ser aquela menina pequena que o Mondego acolhia nas pedras não era, não querias, aquela menina pequena, feliz, preferida, perfeita, como se as margens não tivessem há séculos reduzido os teus sonhos a um murmulho de pingos grosseiros e a chuva pudesse, e fosse ainda imagina, a banda alegre na praça da aldeia inundando o coreto de música, és parva, as voltas que o mundo deu entretanto, a quantidade de areia que roubaram às margens, as merdas que despejaram lá dentro não viste, manchas opacas e verdes que engolem a água e a cospem, com espuma ao canto das pedras e sangue nas guerlas da tua infância, percebes, a tua infância que é um lugar de metáforas e pronto, deixa-a, livra-te dela que ninguém mais a habita, nem tu, nem eu, nem as tias põe-te direita, não olhes para trás, não olhes para baixo mas em frente e para cima, ali, no meio do azul estás a ver, aquela nesga de céu que se abre para ti, ali, ali, tens de olhar bem, ali através daquela estreita frincha de luz vês agora, é para lá que os olhos te chamam, para o alto e por isso te digo livra-te disso e despega-os do fundo do rio que me cansas, cansas-me tanto!
É à hora do calor
que o ar se adensa e me dilata, tão espesso que me custa atravessá-lo. As tias velam para que o sol não se acenda no meu peito que, ardido de saudades, tenta esconjurar a morte. A sesta é sempre um labirinto onde julgo achar o sono para logo ele se perder, para me perder, me confundir, abrir-me os olhos, devolver-me ao presente que acompanho com o rumor da minha infância. Estranho vício este de achar que há anos fomos perfeitos e que as coisas e os lugares e os próprios sentimentos, que a distância consagrou em cenários impolutos, não se acercaram de nós para adulterar o perfil da felicidade. Acreditar que as paisagens e os poentes e os pinhais são muito mais do que estilhaços de memória à flor da pele, muito mais do que fragmentos impalpáveis de matéria. Ter a certeza, isso é que é estranho, que a perfeição conserva cores, preserva aromas, retém sons, ampara sonhos e contraria o humor das pulsações, bate-pára bate-pára bate-pára, batendo sempre e para sempre ao ritmo certo e seguro dos corações.
À hora do passado é de calor que me rodeio. É com ele que me adenso e me dilato, é a sesta que atravesso quando a morte vem espreitar-me, as saudades que esconjuro quando me sobem ao peito, e me estilhaçam. Cinco anos e o sol raiando a tarde através dos véus das fadas, o vício da felicidade, a perfeição soando exacta, bate-bate bate-bate bate-bate. Trinta e seis e um labirinto num brevíssimo piscar, aquele mesmo onde o sono me fugia para logo me encontrar, onde há mãos que se agarram para depois se desprenderem e os lençóis, com o travo da alfazema nas suas dobras de renda, me espantam os pesadelos. E as tias pacientes e sentadas ao meu lado, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, as tias vivas, dorme dorme ainda é cedo, brevíssimo o instante que separa a perfeição do ritmo incerto de uma ausência, abro os olhos, fecho os olhos, bate-pára bate-pára bate-pára, oiço o sino que se cala de repente, sinto a noite rente a mim, a subir pelo meu corpo que cresceu sem que lhe tomasse o peso e no escuro perco as referências. Não é a sesta em lume lento que sinto colada aos ossos, bate-pára bate-pára, não é o sol aceso atrás dos véus de popelina, não é o cenário impoluto da infância a soar-me a felicidade, e não era a voz das fadas, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, bate-pára. Não era porque é tarde, pára, dorme dorme ainda é cedo, é muito tarde, pára-pára pára-pára, passou-se tempo, muito tempo, quanto tempo?, e não há forma, não há meio de esconjurar este travo que me dobra o sono ao meio quando durmo e quando acordo num imenso espaço em branco povoado com memórias que me custa atravessar e onde os corações não batem.
À hora do passado é de calor que me rodeio. É com ele que me adenso e me dilato, é a sesta que atravesso quando a morte vem espreitar-me, as saudades que esconjuro quando me sobem ao peito, e me estilhaçam. Cinco anos e o sol raiando a tarde através dos véus das fadas, o vício da felicidade, a perfeição soando exacta, bate-bate bate-bate bate-bate. Trinta e seis e um labirinto num brevíssimo piscar, aquele mesmo onde o sono me fugia para logo me encontrar, onde há mãos que se agarram para depois se desprenderem e os lençóis, com o travo da alfazema nas suas dobras de renda, me espantam os pesadelos. E as tias pacientes e sentadas ao meu lado, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, as tias vivas, dorme dorme ainda é cedo, brevíssimo o instante que separa a perfeição do ritmo incerto de uma ausência, abro os olhos, fecho os olhos, bate-pára bate-pára bate-pára, oiço o sino que se cala de repente, sinto a noite rente a mim, a subir pelo meu corpo que cresceu sem que lhe tomasse o peso e no escuro perco as referências. Não é a sesta em lume lento que sinto colada aos ossos, bate-pára bate-pára, não é o sol aceso atrás dos véus de popelina, não é o cenário impoluto da infância a soar-me a felicidade, e não era a voz das fadas, vá dorme mais um bocadinho ainda é cedo, bate-pára. Não era porque é tarde, pára, dorme dorme ainda é cedo, é muito tarde, pára-pára pára-pára, passou-se tempo, muito tempo, quanto tempo?, e não há forma, não há meio de esconjurar este travo que me dobra o sono ao meio quando durmo e quando acordo num imenso espaço em branco povoado com memórias que me custa atravessar e onde os corações não batem.
21 julho 2005
Olhe, desculpe...
... desculpe lá entrar assim por aqui adentro, sem bater, ainda por cima, mas é que não vi a porta e a janela estava aberta e olhe, sei lá, deu-me vontade de espreitar, sabe, acho até que é natural, para mim é, tenho a mania de espreitar, eu sei que é feio, que não se faz, mas há tanta coisa escancarada por aí que os olhos não resistem a espreitá-las, apanham uma nesga e pumba!, pespegam-se, parece que querem comer as palavras à dentada, e depois colam-se a tudo, mastigam, ficam com elas entaladas a caminho da cabeça, dá-se por eles e já é tarde, embasbacados com o transe do néon, o branco de uns e o branco de outro confundidos e as pupilas dilatadas a atentar nos gatafunhos, a decifrá-los ou lá o que é isso que fazem, a perceber se são mesmo para dizer alguma coisa ou se alguém os disparou num ataque de loucura ou qualquer coisa do género, assim tipo só para confundir a malta, está a ver, para baralhar, dá cá uma trabalheira que eu nem lhe digo nada, até porque, a certa altura, um gajo acorda e pensa o que é que veio aqui fazer e já não encontra nada, é sempre tudo a mesma merda, a mesma mancha, os mesmos riscos alinhados pela bitola das teclas, diga-me lá se não é tudo as mesmas letras, bem feitinhas, com certeza, que nisto as máquinas não falham, mas vai-se a ver o sentido e não há nada, qual sentido, e um gajo pensa, porra, mas para que é que eu fui perder tempo com isto e vai espreitar para outro lado, que raio de vicío, é o que eu acho
13 julho 2005
Quando cheguei,
Fiais ardia em lume brando entregue ao estio. O sol aceso crepitava sobre as serras, consumindo o verde manso dos pinhais e as tias tinham morrido. Afinal, eu não tinha 5 anos e o Mondego já não era o rio cheio da minha infância, mas um fio de água lodoso que lambia as pedras secas.
Dobrei a curva onde as tias se sentavam, atentas ao motor do citroën do meu pai para poderem dar início à contagem decrescente dos minutos que faltavam para chegarmos. Sabiam que, logo a seguir, sairíamos os três ainda zonzos das mil curvas anteriores para cairmos nos seus braços. Agora, no lugar dos sorrisos que se abriam, havia apenas o efeito sombreado das saudades rente à berma.
Mais acima, na torre da igreja, o sino badalava as horas num estretor de altifalantes. Quando eu era pequenina, bastava-lhe vibrar no pendor do próprio som, mas hoje achei que o fazia ao desafio, que desafinava o tempo e que lhe dava, à medida que tocava, o sobressalto ampliado do seu curso inexorável. Senti-me, então, longe das tias e estupidamente crescida.Por toda a aldeia, as casas, como eu, tinham crescido, cimentando o granito com a estupidez das cores. A das tias, por exemplo, rendera-se ao amarelo e reparei que as janelas, de alumínio, se protegiam com portadas verdes escuras e que a luz, filtrada outrora pelos véus de popelina, hesitava antes de rumar aos quartos e se alargar, viva, às paredes. Lá dentro, tudo se desabitara. O chão dos passos, as velhas camas de ferro dos seus corpos sonhadores, os lençóis do aroma a alfazema, os espelhos dos reflexos e até a salinha onde as tias recebiam as visitas para o chá das conversas e do som das colherzinhas que giravam a adoçá-las.
Quando o sol se apagou atrás das serras, adensando a escuridão, procurei a chama doce e abaulada do petróleo que as tias ateavam com um fósforo e que depois protegiam, numa redoma de vidro. Criam, assim, que os nossos sonhos seriam iluminados e que as suas sombras projectadas pelos corredores da casa, diáfanas e tremeluzentes, nos iriam parecer fadas. Pareciam mesmo e, no entanto, quando acendi o candeeiro e a luz fria do néon me revelou, não a forma abaulada da magia, mas um cubo concreto de abat-jour, as fadas desapareceram. Cedi ao desencanto e devo ter adormecido.
De manhãzinha, notei o sol de novo aceso atrás do véu de popelina. A tia Alma, em frente ao espelho, compunha a cabeleira branca e na cozinha a tia Céu cozia pão. A luz alargava-se às paredes, eu tinha 5 anos e uma esfoladela no joelho por causa de um mergulho no Mondego, tinha contado pelos dedos as oito badaladas da manhã e notado que cabiam no meu tempo e nos meus planos, tinha as minhas tias vivas e um pesadelo que contei rapidamente a toda a gente, a ver se me livrava dele
sonhei que as tias tinham morrido.
Depois, a tia Céu chamou-nos para a mesa e a tia Alma, à laia de recompensa pelo susto daquele sonho, deixou-me repetir o doce de amoras silvestres.
08 julho 2005
Adeus, Miguel!
sophia?! que surpresa! vai-se embora?!...
vou, miguel, regresso por uns tempos à infância!
faz bem! sabe que a psicanálise defende e acredita que todos os nossos traumas advêm da infância?
sei, miguel, mas você não é psicanalista! não me diga que acredita nessa treta?
dou-lhe o benefício da dúvida!
a mim?
não, à psicanálise!, sua tonta!
claro, que estupidez!...
e a qual dos lugares da sua infância é que regressa?
a fiais nas férias grandes.
muito bem! e isso fica...
na beira alta.
ah!... tem lá família, é?
duas tias solteironas, incríveis e maravilhosas, gémeas, ainda por cima!
que delícia! noto que são muito importantes para si...
importantíssimas!
então vá, não perca mais tempo comigo!
adeus, miguel, obrigada por tudo!
ora, sophia, foi um prazer! divirta-se muito! e, se puder, escreva-me!
ai, miguel, isso é que eu já não sei se é possível!
porquê? não há correio em fiais?
haver, há! eu é que ainda não sabia escrever nessa idade...
claro, sophia, não ligue... nem reparei na data da carta! 9 de Julho de 1973? que idade tinha em 73?...
vou, miguel, regresso por uns tempos à infância!
faz bem! sabe que a psicanálise defende e acredita que todos os nossos traumas advêm da infância?
sei, miguel, mas você não é psicanalista! não me diga que acredita nessa treta?
dou-lhe o benefício da dúvida!
a mim?
não, à psicanálise!, sua tonta!
claro, que estupidez!...
e a qual dos lugares da sua infância é que regressa?
a fiais nas férias grandes.
muito bem! e isso fica...
na beira alta.
ah!... tem lá família, é?
duas tias solteironas, incríveis e maravilhosas, gémeas, ainda por cima!
que delícia! noto que são muito importantes para si...
importantíssimas!
então vá, não perca mais tempo comigo!
adeus, miguel, obrigada por tudo!
ora, sophia, foi um prazer! divirta-se muito! e, se puder, escreva-me!
ai, miguel, isso é que eu já não sei se é possível!
porquê? não há correio em fiais?
haver, há! eu é que ainda não sabia escrever nessa idade...
claro, sophia, não ligue... nem reparei na data da carta! 9 de Julho de 1973? que idade tinha em 73?...
Fiais, 9 de Julho de 1973
Sophiazinha,
Aqui estamos, nos Fiais. Chegámos ontem à tardinha à estação do Carregal. Depois, foi só apanhar a camioneta até aqui. Lá passámos por cima do Mondego, que está cheio e com água bem limpinha. Que sorte! Vais poder tomar muitos banhos estas férias! O Álvaro ajudou-nos com as malas e a Rosa Maria estava à nossa espera com os mimos do costume.
Estamos cheias de saudades! O que vale é que já não falta muito para chegarem!
Manda saudades ao pai e à mãe, muitos beijinhos para ti e para as manas da
tia Céu e tia Alma
Aqui estamos, nos Fiais. Chegámos ontem à tardinha à estação do Carregal. Depois, foi só apanhar a camioneta até aqui. Lá passámos por cima do Mondego, que está cheio e com água bem limpinha. Que sorte! Vais poder tomar muitos banhos estas férias! O Álvaro ajudou-nos com as malas e a Rosa Maria estava à nossa espera com os mimos do costume.
Estamos cheias de saudades! O que vale é que já não falta muito para chegarem!
Manda saudades ao pai e à mãe, muitos beijinhos para ti e para as manas da
tia Céu e tia Alma
Diverte-me a loucura
do meu minúsculo manicómio de ficção, onde os delírios são benignos e não estoiram para arrancar carne a ninguém. Diverte-me a simulação de taras obsessivo-compulsivas, a delirante marcha dos meus dedos sobre as teclas disparando para o ecrã uma série de comuns e banais insanidades, a extravagante invenção de personagens que não quero saber quem são. Divertem-me as palavras que não visam ferir ninguém nem «destruir» quem lá vai dar, pois não estalam nem arrasam nem esburacam nem estilhaçam. E mesmo as pequeninas raivas que parecem provocar, ou o legítimo mau humor de quem não lhes acha graça, não persistem para além dos desabafos, mesmo dos menos simpáticos (se assim não for, vocês é que estão loucos!)
Já a demência desconexa deste imenso manicómio que é o mundo me apavora. Porque essa explode e estala e estilhaça sem aviso em qualquer esquina, a qualquer hora do dia e em qualquer país do mapa. Porque há loucos preparados para acertar na vida alheia e para a fazer esvair-se em dor. Há loucos compulsivos com a tara da maldade e a fixação do ódio a latejar-lhes na cabeça. Há loucos extravagantes. Que não deliram com a benigna e comum insanidade da qual todos nós temos um pouco, mas sim com atrozes fantasias. De dinheiro, de poder, de vingança e violência. Loucos com a paranóia doentia do terror espalhado à toa, com o vício da hegemonia a qualquer preço, com heranças sucessivas de maus tratos onde o exílio da paz ditou a guerra para espanto do amor.
Sucedem-se, por isso, os cenários onde o sangue escorre dos corpos para as ruas. E de vermelho, ainda vivo, passa a luto. Sucedem-se as cidades devastadas pelas bombas, os escombros onde alguém já foi feliz antes dos tiros, os gritos das crianças num presságio de abandono e o colo vazio das mães gerando a contracção do pranto, a solidão brutal dos homens, a loucura farejando a sua presa para saciar o ódio, a raiva surda, o desconsolo ou, simplesmente, o desamor.
O mais grave, no entanto, o que dá razão ao medo e consistência a este absurdo, é que não estamos impunes, nem a salvo, nem preparados para fugir quando sentirmos o perigo. Porque a loucura que anda à solta tem a cor da nossa pele e um coração igual ao nosso a pulsar-lhe nas entranhas. É tão humana como nós. Também respira, também anda, também come e também dorme. Também tem pés e mãos, tronco e cabeça. Mas, por alguma razão, ou por nenhuma, não sabe focar a luz e não sonha com a paz. Por isso, quando atira, podemos ser nós o alvo. E se atirar a matar, aí sim, estilhaça-nos a vida num abrir e fechar de olhos.
Já a demência desconexa deste imenso manicómio que é o mundo me apavora. Porque essa explode e estala e estilhaça sem aviso em qualquer esquina, a qualquer hora do dia e em qualquer país do mapa. Porque há loucos preparados para acertar na vida alheia e para a fazer esvair-se em dor. Há loucos compulsivos com a tara da maldade e a fixação do ódio a latejar-lhes na cabeça. Há loucos extravagantes. Que não deliram com a benigna e comum insanidade da qual todos nós temos um pouco, mas sim com atrozes fantasias. De dinheiro, de poder, de vingança e violência. Loucos com a paranóia doentia do terror espalhado à toa, com o vício da hegemonia a qualquer preço, com heranças sucessivas de maus tratos onde o exílio da paz ditou a guerra para espanto do amor.
Sucedem-se, por isso, os cenários onde o sangue escorre dos corpos para as ruas. E de vermelho, ainda vivo, passa a luto. Sucedem-se as cidades devastadas pelas bombas, os escombros onde alguém já foi feliz antes dos tiros, os gritos das crianças num presságio de abandono e o colo vazio das mães gerando a contracção do pranto, a solidão brutal dos homens, a loucura farejando a sua presa para saciar o ódio, a raiva surda, o desconsolo ou, simplesmente, o desamor.
O mais grave, no entanto, o que dá razão ao medo e consistência a este absurdo, é que não estamos impunes, nem a salvo, nem preparados para fugir quando sentirmos o perigo. Porque a loucura que anda à solta tem a cor da nossa pele e um coração igual ao nosso a pulsar-lhe nas entranhas. É tão humana como nós. Também respira, também anda, também come e também dorme. Também tem pés e mãos, tronco e cabeça. Mas, por alguma razão, ou por nenhuma, não sabe focar a luz e não sonha com a paz. Por isso, quando atira, podemos ser nós o alvo. E se atirar a matar, aí sim, estilhaça-nos a vida num abrir e fechar de olhos.
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