08 julho 2005

Diverte-me a loucura

do meu minúsculo manicómio de ficção, onde os delírios são benignos e não estoiram para arrancar carne a ninguém. Diverte-me a simulação de taras obsessivo-compulsivas, a delirante marcha dos meus dedos sobre as teclas disparando para o ecrã uma série de comuns e banais insanidades, a extravagante invenção de personagens que não quero saber quem são. Divertem-me as palavras que não visam ferir ninguém nem «destruir» quem lá vai dar, pois não estalam nem arrasam nem esburacam nem estilhaçam. E mesmo as pequeninas raivas que parecem provocar, ou o legítimo mau humor de quem não lhes acha graça, não persistem para além dos desabafos, mesmo dos menos simpáticos (se assim não for, vocês é que estão loucos!)
Já a demência desconexa deste imenso manicómio que é o mundo me apavora. Porque essa explode e estala e estilhaça sem aviso em qualquer esquina, a qualquer hora do dia e em qualquer país do mapa. Porque há loucos preparados para acertar na vida alheia e para a fazer esvair-se em dor. Há loucos compulsivos com a tara da maldade e a fixação do ódio a latejar-lhes na cabeça. Há loucos extravagantes. Que não deliram com a benigna e comum insanidade da qual todos nós temos um pouco, mas sim com atrozes fantasias. De dinheiro, de poder, de vingança e violência. Loucos com a paranóia doentia do terror espalhado à toa, com o vício da hegemonia a qualquer preço, com heranças sucessivas de maus tratos onde o exílio da paz ditou a guerra para espanto do amor.
Sucedem-se, por isso, os cenários onde o sangue escorre dos corpos para as ruas. E de vermelho, ainda vivo, passa a luto. Sucedem-se as cidades devastadas pelas bombas, os escombros onde alguém já foi feliz antes dos tiros, os gritos das crianças num presságio de abandono e o colo vazio das mães gerando a contracção do pranto, a solidão brutal dos homens, a loucura farejando a sua presa para saciar o ódio, a raiva surda, o desconsolo ou, simplesmente, o desamor.
O mais grave, no entanto, o que dá razão ao medo e consistência a este absurdo, é que não estamos impunes, nem a salvo, nem preparados para fugir quando sentirmos o perigo. Porque a loucura que anda à solta tem a cor da nossa pele e um coração igual ao nosso a pulsar-lhe nas entranhas. É tão humana como nós. Também respira, também anda, também come e também dorme. Também tem pés e mãos, tronco e cabeça. Mas, por alguma razão, ou por nenhuma, não sabe focar a luz e não sonha com a paz. Por isso, quando atira, podemos ser nós o alvo. E se atirar a matar, aí sim, estilhaça-nos a vida num abrir e fechar de olhos.

1 comentário:

Silvana disse...

Cara Sophia, agora passei a gostar do seu blog...tem uma escrita criativa e bem elaborada, e hoje denota um momento de consciência.

há uma lei básica em todos as relações: ferimos somos feridos, alimentamos raivas e egos, ora somos a vitima ou o carrasco. No fim, nada resta a não ser um profundo vazio e unidades gravitacionais de informação desnecessária à volta da nossa mente e o excessivo cansaço que daí advém.

;)