05 julho 2005

Dormitei

e, no torpor diminutivo da tardinha- que à tardinha pouco ou nada há para fazer num manicómio - mergulhei num pesadelo perturbador. Eu era eu, e tinha a certeza disso, e havia à minha volta uma série de pessoas agarradas a teclados e de olhos postos num écran em forma de ovo. De repente, sem que ninguém tivesse mexido um dedo, apareceu um insulto em letras pequeninas no écran onde os olhos das pessoas estavam postos e, não sei muito bem porquê, as pessoas confundiram-no comigo. Num instante, metralharam com os dedos os teclados que traziam e encheram o écran de outros insultos, tão ou mais destrambelhados que o primeiro. Agora já não sei reproduzi-los um a um, mas todos se insurgiam contra uma tal nini que achincalhava a Catarina. Percebi que olhavam para mim com um ar pouco amistoso e que gritavam muito alto coisas feias e que estavam realmente enfurecidos com a nini, o que até era normal, só que ela não era eu e eu também não era ela. Estarrecida e apanhada no meio desta confusão, onde havia um senhor a mandar a tal nini para o real caralho, mesmo assim, com as letras todas
nini, vá para o real caralho
ia assistindo, caladinha, à troca de galhardetes que, sem cessar, continuavam a fervilhar no écran-ovo. Para agravar ainda mais toda esta cena insólita, juntou-se à festa uma amelinha que, mais uma vez e não sei se devido ao teor do comentário ou se do quê, as pessoas acharam (outra vez?!) que era eu. Não se desculpa a mesma farsa duas vezes e lá nisso estou de acordo, mas porque era mentira que eu fosse elas, ou que elas fossem eu, precisei de defender-me. E, nessa altura, eu que sou eu, muni-me também de teclas, escrevi ponderadamente a minha versão dos factos, que fiz seguir directamente para o écran que agora era um rectângulo, e estive quase para acordar nesse momento e contar tudo à Catarina. A sesta, no entanto, não tinha ainda terminado. Virei-me para o outro lado e a sonolência, já livre do pesadelo e dos insultos e dos gritos e das teclas, devolveu-me a lucidez: há muito tempo que ela sabe quem eu sou e isso faz-me suspirar de alívio. Conhece o meu nome verdadeiro e parte da minha história - que, afinal, vou contando noutros lados - e de certeza que percebe que nestes lugares de escrita, venham lá de onde vierem as palavras e porquê, habita gente. E se não fosse o Miguel ter entrado nessa altura no meu quarto,
a dormir, sua maluca?! mas isto lá são horas de dormir! toca a acordar!...
tinha ido ter com ela para que confirmasse ao vivo que não tenho nem cara de nini nem de amélia nem de insulto e que a Sophia - mesmo parva - não trai a minha honestidade.
E, já agora, para que não ficasse a dúvida - ou a coincidência estranha - de haver três (três?) «ipês» iguais, apresentava-me
- Olá, sou a Inês.
Mas fica para outro dia, que agora o Miguel acabou de ligar os fios eléctricos e vai dar-me uns choquezinhos para ver se curamos de uma vez esta maldita - e, pelos vistos, controvesa - dupla personalidade
minha querida, então em que cabeça é que quer que eu ligue os fios? na sua ou na da sophia?
Nem hesitei
ligue na dela!, que ela é que tem a culpa!

2 comentários:

João Delgado disse...

Epá! andei por lá, andei por aqui, tentei perceber a razão de tanto alarido e eis que finalmente leio:

"Foste arrasada pela concorrência, é muito melhor do que tu...sory!
http://www.contametudo.blogspot.com/"

seja a "Nini" quem for,

E depois! faz-me lembrar as crianças quando alguem lhe diz que a outra é melhor que ela e depois desata a fazer um berreiro para que todos possam
medir o tamanho do seu sofrimento.
Haja paciência!

Amélia disse...

Sonhaste comigo, querida?! Que honra.