06 julho 2005

Posso entrar?

- Faça favor!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Você é a...
- Vanessa!
- Vanessa! Muito bem! Kátia Vanessa?
- Não, não, é só Vanessa.
- Só Vanessa, muito bem! Que idade tem?
- Vinte e cinco.
- Vinte e cinco... Vinte e cinco? Não parece! E vem de...
- Dali de baixo.
- Número?
- 2.
- E o código postal?
- 2005-607.
- Tem namorado?
- Agora não.
- Sida?
- Ainda não.
- E é virgem?
- Não, já não.
- O que é que faz?
- Sou cabeleireira.
- Hum... cabeleireira! Ó Só Vanessa, se eu lhe pedisse para pintar ali o cabelo à Marta fazia-me o jeitinho?
- De que cor?
- Logo se vê! Continuando... Só Vanessa, gosta da sua profissão?
- Gosto muito, sim senhor.
- E o que é que a traz aqui?
- Sou suburbano-depressiva.
- Pois. De facto, isso é muito aborrecido.
- Mas acha que tem cura?
- Calma, Só Vanessa, calma... Com calma tudo se cura!
- Até uma suburbano-depressão aguda?
- Sim, até isso. Bom, acho que é tudo... Ah não! Espere aí, ainda falta uma pergunta: tem ipê?
- I quê?
- IPÊ!
- Ipê? Acho que não... Mas tenho Lexotans! Acha que serve?
- Esqueça! Aqui tem a chave...
- Quarto número cento e doze?
- Isso, o das emergências médicas. Ao pé das outras duas, ao fundo do corredor. Bom sorte, Só Vanessa!
- Obrigadinha.

8 comentários:

dr. singelo disse...

sem complacência nem piedade, a prosa merece duros reparos, porque podia voar e não voa, porque podia ser música mas não é:

lentos arrepios de ausência
tua voz profunda e doce
O vento (...)segreda-me o outono que há-de vir

tudo lugares comuns, a empobrecer um texto onde se esperava
que a demência semeasse imagens mais poderosas, mais perturbantes... De terror? Talvez...

'Chamo aos gritos por ti - não me respondes
Bejo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio...'

Bela imagem, não? 'Ou és outra, ou me enganas...' Palavras dementes
de tanto espanto, de tanta dor, dementes perante o que é impossível de aceitar! Mas já perdi tempo demais contigo, filha, não sei porquê, talvez mereças. Receito-te: duas páginas de Herberto Helder antes do deitar; meio canto da Odisseia ao acordar. Boas leituras.

Dr. Singelo

Kátia disse...

Vanessa?! Não me confundam, por favor. Bimbos!

Maria Albertina disse...

Ó filha! Então tu disseste-me k ias para o Brasil e afinal era isto! Como é k eu fui nessa...???

Kátia disse...

Burra. E fui mesmo para o Brasil. Estavas a confundir com a Av. do Brasil, era? O Miguel nem sequer fica aí. Totó.

Maria Albertina disse...

Vai chamar mãe a outra, pá! A minha filha é a Vanessa. O Camané ainda n te contou? Totó é kem chama!

Kátia disse...

Ai, desculpa. Enganei-me.

Maria albertina disse...

Não faz mal... Posso ser tua mãe tb. Já pecebi k estás com falta de carências.

Maria albertina disse...

ah! e um gde beijinho para ti!