18 fevereiro 2009

Mudei-me

para longe. O vidro estilhaça-se e fere e por isso prefiro as substâncias voláteis. Que se evaporam sem deixar rasto.

21 julho 2008

Na minha vida real

ele sai de casa em setembro.
acho que já tinha escrito, mas por alguma razão precisei de escrever outra vez.

e de mim? sairá quando?

Volto uma e outra e outra

vez, mas venho à pressa.
(se me debruçar demais, caio da janela)

20 julho 2008

Na vida real

anoitece.
e à medida que as sombras avançam, o desamor prenuncia-se em nós.
por que será, nesse caso, que à noite na cama te pronuncio ao ouvido palavras de amor?

19 julho 2008

Na vida real

ele sai de casa em setembro.
mas já que aqui dentro sou muito mais dada a vidinhas, em vez de me expor passo à frente.
e vejo-me já muito depois de ele ter saído e eu livre. provavelmente, amando de novo.

30 abril 2008

O que é que vale

nesse caso?
como é que se aufere a qualidade da escrita?
é o dom, é o fôlego, o plágio, a paciência, a figura de estilo, a voz própria?
- A voz própria?
- Não sei.
Não sei se algum dia escrevo o romance
- Tenho a certeza que sim
não tenho a certeza de me ter estruturado para tanto.
de ter fôlego, dom, coragem, paciência.

acho que é jeito, só isso.
tenho jeito para a escrita.
até quando?

Como se cada bocado de escrita

valesse por si e não vale, sei isso tão bem!

Se algum dia vieres aqui dar

por acaso
e fores lendo o que escrevo
não tires conclusões.
aqui dentro, nada parece o que é.
a ti vejo-te de outra janela, não desta, que chega a ser pequena para nós
esta aqui
abrindo-se à escrita e aos sonhos
voando no vidro
rectangular e pequena.

não era bem isto, mas pronto.
passo ao post seguinte.

Faço o que quero

quando escrevo. vou onde quero ir, onde não quero, saio de onde estou, fico mais leve.
quando me espraio à tona do vidro, o tejo fica mais perto.
por isso ainda estou lá, contigo na margem do rio há vinte anos atrás.
talvez o princípio afinal não passe daí.
qual egipto, suméria, qual quê.
não te matei coisa nenhuma, nem sequer te vi antes na índia
- Nunca lá estive
não somos nada um ao outro,
parece.

E se eu te dissesse

que apesar dessa tua magreza, desse nada que és, ainda mexes comigo?
se te contasse que há pouco
ao almoço, quase no fim
me apeteceu dar-te um beijo na boca só para ver ao que sabia.
sabia-me a pouco
isso sei eu!
mas tinha gostado na mesma
sobretudo de termos tido outra vida
eu e tu
tu e eu
em vez de nada uma história
a constelação do amor no nosso mapa composto
não serias seguramente tão magro
e eu, provavelmente, também não seria quem sou,
- Sophia?
mas uma Vanessa da vida a definhar ao bolor.

Desculpa, Sophia,

mas afinal ficas cá.
preciso de ti à tona do vidro, não vale a pena arriscar dar-te corpo, vestir-te, emprestar-te o perfume e ainda ter de te ver a pôr rímel, bâton, essas coisas.
há dias em que és um fardo, percebes?
e, para pesos, chegam-me os meus.

29 abril 2008

Hesito se a levo

comigo amanhã.
Coitada, já sofreu tanto!

Ainda não tirei

da cabeça a ideia de um princípe à espera que eu chegue.
Mesmo que não acredites, ele espera-me algures.
Já o despojei do cavalo, dos adereços, do manto de glória e da espada, dos olhos azuis como o mar, dos cabelos, agora invento-o sem nada.
Não há expectativas, portanto.
E isso assegura-me a calma de que preciso para o descobrir.
Não será, seguramente, amanhã ao almoço, está descansada.
- O Vasquinho o teu príncipe?
Não faltava mais nada, coitado.

Ela volta,

um dia ela volta, assim como as fadas voltaram depois de me terem deixado perdida na ilha, nesses anos não convidava o Vasquinho para nada, sonhava apenas com ele
era tudo.
Já muito magro, remoendo ele também a vidinha de merda que lhe coubera em sorte, agarrado à Vanessa, ao bolor de Colares e a toda uma série de insignificâncias, um escanzeladinho de nada a dar-se ares de alquimista e eu a cair na conversa, meu deus.
A minha alma gémea, como é que é possível?
- Não é.
Levei-o para a ilha comigo e todas as noites sonhava com ele. Sonhava com ele todas as noites mesmo antes da ilha, antes de tudo, antes de o mundo ser mundo, daí a sensação de podermos ser almas gémeas, talvez, por mais absurdo que isso agora me possa parecer...
- Absurdo?
Absurdo! Isso e o resto. O almoço com vista para o rio, a Vanessa, o bolor, a facilidade com que ele desfazia as constelações e me apontava os planetas, os dois deitados na margem do tejo, a serra de sintra, o brilho nos olhos quando não eram magros, ou terão sempre sido e nunca o quis ver?

Ou isso.

Também pode ser isso.
Não escrever nada, estar à janela por estar, chamar-me Sophia e desenrolar por aí fora a minha vidinha às vizinhas
- Por falar nisso, onde é que elas andam?
- Não sei.
Nunca mais soube nada dos namoridos, da catarina, e de todas as outras que gerem vidinhas como, afinal, eu giro a minha
- Sophia, não é?
Sophia. Isso mesmo.
- Muito prazer.
Às vezes, invejo-lhe o plasma. A facilidade com que faz e desfaz considerações, amizades, a inconsistência dos traços, a fragilidade das medidas que encontra para justificar alguns dos seus actos. Invejo-lhe o tom, fútil e leve, o sentido de humor, a ignorância, o orgulho.
Eu sou muito mais pele, atrevo-me a menos.
Além disso, não sou como ela. Não gosto de expor-me ao ridículo, ao gosto dos outros, às pretensões, à inveja, às vidinhas, no fundo, que encontrei tantas vezes escorrendo da tinta, enchendo janelas, desfiando proezas, rotinas, actos caseiros sem nada de heróico, arrotando sentenças, ou despejando chavões e eu disso não gosto, sabe-me a pouco.
Já à Sophia, sabe-lhe ao suficiente para poder sustentar a sua própria vidinha.
As suas próprias proezas, rotinas ou actos caseiros, as suas sentenças, os seus chavõezinhos.
Por isso, querida, bem haja. Volte là sua vidinha que bem a merece.
- Hei-de voltar, obrigada.

Ou simplesmente voltar

à minha mãe,
que está no Brasil, imaginem!
à mãe que arrasto comigo esteja onde estiver para dentro da escrita e a quem faço maldades, porquê?
- Porquê, minha filha?
lá está ela,
afinal não sou eu.
onde quer que esteja está sempre comigo, dentro de mim, fora de mim, comigo nos braços, protege-me e ao mesmo tempo provoca-me, engorda, sei muito bem que passa a vida a comer às escondidas, abraça-me, beija-me
ainda lhe caibo nos braços
irrita-me,
velha, curvada, sempre com dores, com a caixinha dos comprimidos atrás
maravilhosa e atenta
seguramente o mais generoso dos seres
controladora
armada em vítima
que tal voltar lá?
à minha mãe sem dois lados, única, inteira, sem lhe infligir mais maldades, apenas beijos e mimo, que bom seria se conseguisse unir os dois lados das coisas
os bons e os maus
e perceber que não somos seres divididos
ou somos?

Faz-lhes bem

ficarem a arejar à tona do vidro enquanto ponho os dedos a jeito.
não é isso escrever?
pôr as palavras ao vento ao mesmo tempo que lhes invento uma rota de voo?
não sei...
nesta janela posso ser o que quero.
o que não quero que me vejam a ser.
o que sou.
escrever só por escrever.
- O teu romance vai ter de esperar.
posso abri-la, fechá-la, esconder-me atrás dos postigos, plantar flores nos beirais, inventar precipícios para a rua, debruçar-me, cair
se for caso disso e não houver tempo
talento
se for caso disso ou se sentir vontade posso atirar-me
morrer.
sempre morrer.
se fizesse uma pesquisa por verbos, seguramente
morrer
era o que apareceria mais vezes.
morrer só por morrer.
só porque sim.
pelo sabor, pelo medo
por ti.

Ontem,

foi ontem?
abri a janela, já não o fazia desde dezembro
- Este ano, o natal foi horrível, não foi?
e apeteceu-me escrever:
«todos os dias acordo e vou para a guerra»,
mas não cheguei a escrever, não assim.
hoje abri-a de novo e o que me apetece escrever já não é nada disto, ainda bem
espanto-me que continue a abrir a janela, que não é nada do que já foi,
vidro,
vidinha,
substâncias e pele
e lembro-me então que foi ontem que convidei o Vasquinho para almoçar,
- Já não nos vemos há séculos!
tenho além disso tido outras coisas com que ocupar-me.
livros, filhos, desenhos, pessoas, angústias, projectos.
sabe-me bem a liberdade de poder dispor do meu tempo, mesmo quando este passa a correr não me deixando livre para nada.
pois foi.
falei ao Vasquinho,
não ao dos sonhos, ao outro
ao magrinho
- Lembras-te? Chamavas-lhe o escanzelado de merda!
noto que me faz falta a janela, afinal faz-me falta a janela, preciso da escrita, o natal foi horrível e em dezembro chorei praticamente todos os dias.
ontem falei ao Vasquinho e sugeri-lhe um restaurante com vista para o rio.
hoje abri a janela e pus finalmente as palavras a arejar.

05 dezembro 2007

Mas é claro que na fase em que estou

acho que já nem isso sei, já nem sequer sei pintar mapas. As virgens saem-me mal, angustio-me com os capricórnios, as setas dos sagitários parecem-me todas iguais. apenas os caranguejos, os leões, as balanças me dão algum gozo, mas continuo sem saber como encho o círculo do meio ou se não o encho de todo, viro a sala ao contrário e espalho tudo no chão, pelo menos escrever dá menos nas vistas, colo e descolo apenas com teclas sem ter de andar de rabo para o ar à procura do tubo de purpurinas com que quero enfeitar os dois peixes.
os teus sairam-me bem, os teus peixes estão lindos, fazem parte da colecção de artefactos das férias na beira, em verde e cor-de-laranja, o fundo é vermelho-morango.
ou seja, da mesmíssima cor das estantes que vamos pintar e que esperam por nós há que tempos, coitadas, devem estar cheias de pó, se calhar vai ser preciso a E. voltar a esfregar a carpete, é pouco provável que a tua mãe nos empreste o aspirador outra vez,
olha quem
(isto foste tu que disseste)
portanto é assim. pintei mais dois mapas, um ainda não acabei, na segunda vem cá a MJCF almoçar para os ver. a tal que os quer para o livro, e talvez ceda afinal.
pode ser o princípio.

Voltei aos mapas

e usei fundos de cor.
Fiz o teu.
Está maravilhoso.

03 dezembro 2007

Se soubessem

de todas as vezes que ensaio, de todas as vezes que tento, que apago, dos dias em que não escrevo, do medo. se pudessem provar das palavras depois de as terem cuspido do peito veriam como não sabem a nada, apenas se dobram, é tudo, curvadas sobre si próprias, tristes e mancas, perseguem-se e pronto, perseguem-me, faltam-me, não sobra mais nada.

Sem perder tempo

tiro-a de onde estiver, já não me lembro onde foi que a deixei da última vez, trago-a para dentro, digo-lhe
sente-se aqui
ela senta-se
acendo-lhe a luz.
Não quer que lhe conte uma história?
faz que sim com a cabeça.
Pego num livro, um qualquer
pode ser este?
e leio-lhe em voz alta.
Pouquíssimo tempo depois reparo que adormece, aconchego-lhe a manta, volto a pôr o livro na estante, depois fico sentada a olhá-la. Só então me apercebo de que é a minha mãe de verdade e não a outra que invento e que é por isso que dorme, tão calma, ao meu lado.
Acho que vou acordá-la e morder-lhe.
É uma farsa poupar a carne às palavras.

Um dia passa-me e pronto

volto a ser dona de mim, tenho-me em conta, extravazo, em vez do fundo do fundo subo aos cumes do céu e armo-me em deusa, pinto-me, enfeito-me, já não me dói nada, recupero o poder, reparo que o dom está intacto e que afinal posso escrever, é tão simples.

E tu

que de vez em quando aqui passas
- desculpa não termos tomado chá noutro dia mas estava cansada, acho que já era a espuma, já era o poço a comer-me, o logro, o engano, isso tudo que sabes que sobe por mim, ou que desce, que me leva cada vez para mais longe de tudo
tu, que de vez em quando aqui passas e que te afliges
- eu sei que te afliges
quando me vês
- quando me lês
quando escrevo estas coisas que assustam, assustam-me, sim, assustam-me imenso e tu sabes
- como é que não enlouqueces?
quando os monstros vêm espreitar-me ou mais do que isso
- sabes que ultimamente têm querido levar-me?
quando me puxam, me sugam, me rasgam por dentro e me esvaio, não fico capaz de mais nada senão destes disparos de mentira
- palavras!
que não atingem ninguém, que não ferem, não matam
- afinal não sou lá grande espingarda a escrever
tudo mentira.
Ainda assim, quando vieres, quando voltares a passar por aqui, quando sentires o estômago às voltas com cada palavra que cuspo, quando deres por ti a pensar
- mas o que é que se passa?
protege-te.
Mantém-te à tona do poço e não tentes espreitar lá para dentro. No fundo do fundo estou eu, disposta a desistir de salvar-me, não me perguntes
- porquê?
Tomamos chá noutro dia, está bem?

Ando ao engano

a achar-me dona de mim quando afinal nada em mim me pertence
de facto.
Ando louca ao engano, ao encontro das coisas, procuro-me nos improváveis, nos menos certos, vou sempre para o lado onde nada me espera, a direcção está errada e eu erro. Erro à procura do mundo que julgava caber-me nas mãos, um manso volume de azul que contive nos dedos durante anos a fio mas eis que o azul se dilui, molha-me o colo e os olhos, talvez chore mais tarde, isso sim é provável.
Por ora os olhos estão secos, nem sequer ardem, o mundo caiu-me das mãos, tenho apenas espuma nos dedos.
Ando ao engano a pensar que são letras, a achar que domino as palavras, que tenho uma história e não tenho, muito menos um jeito ou um dom para contar o que seja, é tudo um logro e eu
mas que parva que eu sou
cedendo ao engano.
Ando em círculos mas nenhum mar me circunda, é só a espuma que sobe por mim, rasa-me os olhos
não choro
depois desce em espiral e leva-me o folêgo, provavelmente estou morta e ainda não me dei conta, ando ao engano e é tudo, não tarda muito e descubro que é tarde e que estou finalmente no fundo do poço.
Mas nem sequer isso lamento.

24 novembro 2007

Dias de sol

de cera, de luz. Dias de nada, dias de tudo. Dias esgotados, desperdiçados, perdidos. Dias à toa, dias à deriva. Os dias todos da vida. Tão poucos.

Não peço nada

não há desejo nenhum, enganei-me apenas no título, e foi tudo. Mais logo, mais tarde, amanhã irei à procura do livro da Barbie
sabes que está no top de vendas da fnac?
escolho uma história ao acaso, sento-me à beira da cama e leio-a com a voz empastada, bocejo, fico cheia de sono, as miúdas acordam-me, puxam-me a manga da camisola,
então mãe não contas a história?
Tenho tanta pena de não ser loira, caraças!

23 novembro 2007

É assim que te encontro,

à minha espera no rectângulo que invento, dou-lhe ares de salinha, componho o sofá, adormecemos cansados da chuva. É demasiado estreito para os dois e não sobra amor para mais nada.

Infinitamente mais fácil

vir dar ao néon do que imprimir em papel palavras com nome.

Infinitamente mais simples, tudo muito mais curto e muito mais rápido, a ausência das coisas, a inexistência dos traços, as letras caindo de rosto para baixo, nem um só sinal de que aqui passou gente, nenhuma marca de passos na neve.

Infinitamente menos perigoso, riscos praticamente nenhuns de o néon me rasgar os olhos de máscara, os dedos de plasma, as mãos emprestadas, nenhuma necessidade maior, nenhuma proeza para tentar agradar ou surpreender, ninguém de passagem à face do vidro, consubstancio-me na transparência e é tudo, nem sequer faço de conta que não existo, vou inventando o que sou ou não sou à medida que escrevo, o que quero ser vem à tona, o que não quero afunda-se em mim.

Infinitamente mais leve o rectângulo da escrita boiando sem rumo do que o meu nome na capa de um livro, ao alcance de todos.

14 setembro 2007

Primeiro

aspiramos o pó.
Depois, podemos ASPIRAR ao que quisermos.
Mais tarde pintamos as paredes, se não der muito trabalho.
A ideia é lavar a alma.

Já não me dá

assim tanta pica, o néon. A escrita espalmando-se nele. Caindo-lhe em cima. Uma letra, outra letra, outra letra. Palavras e frases. Ponto. Espaço. Shift: maiúsculas. Essas coisas. Trejeitos. Manias. Coisinhas de nada.
O rectângulo é demasiado pequeno, virtualmente vêem-se as vistas, debruço-me mais e mais à janela, não passa ninguém, espio sem ser vista, que bom. Cuspo o que me dá na real gana. Às vezes, vomito.
Passas cá tu, de vez em quando, e pões-te logo a pensar que tenho alguma coisa, que perdi uma amiga, que me acusaram de embustes, que devo estar a passar por uma cena qualquer que não te contei, mas não é nada disso. é apenas de vidro ou de outras substância qualquer. Transparente, por vezes, fosco na maior parte dos dias, intermitências. Não se vê lá para dentro, embora se pense que sim. Os vultos lá atrás não são de ninguém, as pessoas daqui estão sempre paradas, não notas?
Acho que já te expliquei: não passa de um exercício. Pô-las a andar de um lado para o outro, a fazer coisas que não era suposto, a morrer, a cantar, a acusar-me de embuste, seja o que for, não é realmente importante. E já nem sequer me dá pica, vê lá que chatice...

Que post era aquele

no de vidro?
qual post?
aquele, de dia 9
não era nada
oh
a sério, não era nada.

tal como este
também não é nada.

ok?

09 setembro 2007

Ontem,

foi ontem?
ontem recebi um mail dela.
falava de embustes, e percebi que estava zangada comigo, as palavras eram como pequenos soluços, espaçadas. uma mágoa qualquer azedava-lhe o tom, acho que já não somos amigas. que nunca mais vamos ser. tentei explicar-lhe que nada disto
nada
é um embuste. apenas a forma que achei de me reinventar, de inventar histórias que não me pertencem ou, tão simplesmente, de deixar que as palavras me escorreguem dos dedos sem querer acertar em nenhum alvo real. riu-se. e mesmo sendo apenas um riso de mail, o seu tom de ironia atingiu-me. repetiu outra vez
és um embuste, a quereres fazer-te passar por quem não és. desde o princípio que sei.
depois alguém me chamou.
acho que esperam por mim à porta da rua.
tenho de ir.

08 setembro 2007

E então dá-me para isto:

chego, espalhando-me com medo que me vejam - ou que me espiem - como se derramar palavras fosse quase um sortilégio, um gesto reprimido, uma vontade que contenho. dizem-me de fora que não há nada a perder. não há, seguramente, o que ganhar neste alinhamento recto de palavras ao acaso. o que tenho para dizer vou-o dizendo em lugares menos desertos, lugares onde o papel retém as letras e onde cada recta de palavras pode seguir um rumo certo até se fazer sentido. aqui, pelo contrário, não há nada que precise de provar. nada em que precise de insistir, nenhum ponto de referência, então porquê? porquê o medo
talvez não seja medo
é claro que não é medo. apenas a palavra:
medo
minúscula no início de uma recta que não é preciso completar, só se quiser.
e então dou por mim a pensar que me faz bem e me dá gozo: chegar, espalhar-me, e criar esta falsa ilusão de sortilégio. e sem ter nada a perder...

18 junho 2007

Como se nada fizesse sentido

nada. Como se não fossemos nós, não somos nós, e tu sabes. Sentados de costas um para o outro, medindo as manchas cinzentas do rio, o azul aguado nos olhos, como se fosse verdade já não nos amarmos, que disparate não achas?

Não se via mais nada

a não ser a mancha cinzenta do rio, olhos e água galgando as margens e nós, nós os dois sentados na sala, prescrutando o vazio, tentando encontrar um no outro as razões para já não nos amarmos, quando foi que deixámos de ver a paisagem que existe para além do bugio, o mar que se estende logo à frente dos olhos, tu e eu debaixo do céu, sentados ao lado um do outro, descobrindo um no outro manchas de azul e de riso, quando foi que deixou de ser Verão?

11 abril 2007

Acabei de imaginar

a minha filha
qual delas?
sentada na beira da minha cama enquanto durmo uma sesta, a sesta mais longa da minha vida, imaginei-a a pegar-me na mão, a chamar-me
mãe
e eu ainda de olhos fechados para lhe poder sentir melhor o perfume
diz querida
eu ainda de olhos fechados, já muito depois de morrer, a sentir a mão dela pousada na minha e sem poder retribuir-lhe com nada.

A sorte

é poder fechar a janela e deitar-me no escuro à tua espera.

A sorte

é poder abrir a janela, debruçar-me e saber que não dá para o mundo, que lá em baixo na rua não passam olhos a ver-me e que ninguém me espia pela calada da noite, tentando roubar-me o sentido ou apropriar-se de certas palavras que, vendo bem, nem sequer me pertencem.
A sorte é a certeza de que me abro de par em par sem pudor, deixando entrever não só o meu corpo, mas um pouco da alma de que sou feita, a sorte de me encostar ao parapeito sem que a vertigem da queda me assuste, sem ter de acenar nem sorrir às vizinhas que dividem o plasma comigo, sobretudo, sem ter de lhes ouvir os palpites ou de engolir as maldades que cospem à porta umas das outras.

Ainda tenho a receita

na minha carteira, dobrada.
Seroxat
escrito na caligrafia do mestre, a letra preta e permanente inclinada, e o meu nome
Sophia
Quando almoçámos os dois, há uns tempos atrás, falei-lhe da minha suspeita de poder andar deprimida, contei-lhe
não tenho força para fazer nada
não tenho vontade
Comemos naquele restaurante onde servem sopas de fruta, pedimos os dois o sumo do dia como já vai sendo costume, falámos da alma, de andarmos aqui à procura do mundo e da mais que evidente probabilidade de o mundo, afinal, ficar noutro sítio
para mim mais acima
e para si?
Para ele, nada.
Depois do café, fomos ao consultório e passou-me a receita
prometa que toma e depois dê-me notícias
Despedimo-nos com um abraço. Ele é alto e sinto-me sempre desconfortável quando me abraça, parece-me sempre que sobro
prometo
Mas continua dobrada na minha carteira.
Amanhã
talvez
dou-lhe notícias.

Fizemos as pazes,

ontem, comigo ainda sentada na beira da cama, subitamente aterrorizada com a imagem da minha mãe a gelar, ocorreu-me que um dia vai morrer de verdade e senti esse frio colado ao meu corpo, antecipei a sua ausência e o mundo pareceu-me vazio de repente, peguei-lhe na mão, chamei-a de novo
mãe
e ela acordou, não totalmente, mas o suficiente para me ver através da sesta da tarde e para acertar no meu nome
sophia
para me sorrir e me pedir para lhe contar uma história
uma da ana isabel
achei tanta graça! A minha mãe a pedir-me para lhe contar uma história da ana isabel como se fosse uma das minhas filhas pequenas à beira do sono da noite
era uma vez uma menina chamada ana isabel
diga que ela fazia muitos disparates, mãe, diga
A minha mãe a pedir-me uma história da ana isabel com medo, talvez, que a minha mão possa largá-la e fugir, que a minha voz possa fugir e largá-la, que me levante da beira da cama e que não volte mais ao seu quarto e muito menos ao sono da sesta
era uma vez uma menina chamada ana isabel
Que disparate tão grande andar por aí a dizer que estou há que tempos à espera que morra como se a minha mãe fosse um monstro qualquer que me encheu a infância de pesadelos e de medos
diga, mãe, diga
era uma vez uma menina que se chamava ana isabel e que fazia muiiiiiitoooos disparates
Era uma vez uma menina que se chamava Sophia e que tinha medo do escuro e da noite e do caminho esguio que a trouxera de novo para o mundo e para a vida. Era uma vez uma menina chamada Sophia que nasceu roxa e que todos pensaram que estava morta e que só respirou quando sentiu que não era exequível morrer sem tomar banhos de mar, sem provar a lua ao relento no campo, sem recriar as paisagens à sua maneira, à sua medida
era uma vez uma menina que se chamava sophia
Foi isso, fizemos as pazes, mas acabei por não lhe contar uma história da ana isabel, os olhos dela cairam no sono, tremeram um pouco e percebi que sonhavam.
Era uma vez uma menina que se chamava Sophia e que foi minha filha. Apesar de não a ter tido nos braços mais do que uns escassos minutos
- Assim que nasceste, levaram-te, estavas azul, todos pensavam que estavas morta e era urgente reanimarem-te.
Era uma vez uma menina que se chamava Sophia e que foi minha filha e que morreu assim que saiu do meu corpo.
- Nunca soube gerir essa dor, nunca soube curar o vazio que me deixaste nos braços, onde estiveste pousada apenas uns escassos minutos, até que alguém te levou para longe e para sempre, porquê?
Percebo-lhe o sono agitado, o sonho que a enche de medo e dou-lhe um beijo na testa, largo-lhe a mão devagar, saio do quarto
adeus mãe
Ainda bem que fizemos as pazes a tempo.

10 abril 2007

Hoje, quando cheguei,

nem sequer reparou na minha presença. Sentei-me na beira da cama, chamei-a
mãe
mas não se mexeu, talvez já não me conheça. Tem andado a fazer confusões nestes últimos dias, ora me chama Inês, ora Sandra, ora outro nome qualquer que nunca foi meu, talvez já não saiba que me chamo Sophia e que ando há que tempos à espera que morra.

Como se tudo

fosse solto do resto e não é. As coisas colam-se a mim e levo-as atrás.

E tu:

- Onde é que começa tudo, vai lá ver
e tenho estado a descer desde essa altura mas ainda não cheguei lá. Será que é no fundo?

Não sei

se ainda vou a tempo de salvar-me.

O mal é a medida

ser sempre o extraordinário, esse é o mal
Por isso fico aquém e nunca sou mais que comum
e um dia morro

Não tenho absolutamente

nada de novo para dizer, o espanto é esse, as frases alinham-se e é apenas por acaso quando ficam paralelas ao fio do horizonte
ao horizonte
calha sairem
sairem-me dos dedos como a pólvora dos tiros
calha sairem-me dos dedos direitinhas, mas não há absolutamente nada de extraordinário nesse enredo, as frases saem sempre direitinhas, quase sempre paralelas ao fio do horizonte
ao horizonte
preferia-as tortas, presas por fios, podiam nem sequer ter consistência, eram sem dúvida melhores sem nenhum esforço.

1 comment

anonymous said...
eu diria que não tem nenhum, mas pronto

Do interesse

que tudo isto tem ou não tem é muito difícil dizer.

É tudo uma questão de perspectiva,

claro
tudo depende de onde é que olhamos para as coisas, se fico no chão e olho para cima, é inevitável que as paredes altíssimas, lisas, me cerquem. Mas se sair para o lado de fora e subir e olhar para baixo, o círculo de arena irá parecer-me minúsculo e é provável que mais nada me aperte.
Tudo depende das palavras que escolho,
claro
tudo depende se atiro a matar ou se me poupo, pousando apenas a polpa dos dedos nas teclas como quem toca piano.

A verdade

é que me sinto cercada, como se à minha volta existissem paredes altíssimas por onde escorrego sempre que tento trepá-las, paredes altíssimas e muito lisas, tento agarrar-me, subir, mas escorregam-me as mãos, dá ideia que nunca vou ser capaz de me livrar desta arena e que os meus pés me levam em círculos a parte nenhuma.

Falta-me o chão,

ou então foi o ar que se adensou de tal forma que o respiro e me parece cimento, um bloco compacto e frio de pedra cinzenta que tento engolir e se encrava na minha garganta travando-me o folêgo, chega mesmo a parecer-me
nem sempre
que já não respiro nem tenho para onde ir.

09 abril 2007

Ultimamente,

fica parada a olhar para o vazio ou então embirra connosco, mais com a minha irmã do que comigo, é verdade, comigo intimida-se, acho que fica com medo dos meus amargos de boca, das coisas horríveis
injustas!
que digo e escrevo sobre ela e ainda bem que não sabe da missa a metade.
De vez em quando imagino-a a passear por aqui e a rever-se nas enormidades que deixo expostas para a posteridade
como se um blogue de merda tivesse prosperidade, tens cada uma
até que me pus a pensar que devia mas era pegar nessas enormidades, tirá-las daqui, uma coisa relativamente fácil que qualquer copy-paste resolve, e pespegar com elas numa revista qualquer, era muito bem feito.
Por outro lado, até eu sei que metade - ou mais de metade - destas enormidades não correspondem minimamente à verdade e que a minha mãe-personagem é massacrada por mim «até à náusea», como diria a beata, enquanto a minha mãe-de-verdade repousa incólume no lugar dos afectos.

28 março 2007

Duvido

que alguém
sem seres tu
ainda passe por cá.

Agora vou ensaiar uns divãs para mostrar ao teu professor.

São tão pequeninas algumas pessoas, não são?

Tchchch...

tanta coisa nova para ler...
Pensavas o quê? Que era só bordar e mais nada?!

A isto chama-se

ser compulsiva ou qualquer coisa do género.

O que vale

é que tu sabes que isto não passa disto e que dou corda aos dedos não para que toquem, aqui não se toca, ensaia-se apenas, deixo-os à solta e seja o que for que apareça não faz nenhuma diferença, pois não?
Ontem peguei nos contos mas demorei-me pouco lá dentro e aí sim é suposto os dedos tocarem, que pena ter tão pouco tempo, dois anos de espera é imenso, pode ser que ainda consiga, não achas?

Aliás,

Inês ou Sophia é coisa que faz pouca diferença, a não ser na capa dos livros, aí tem de ser mesmo Sophia
ou Inês
ou seja o que for, tanto faz, andei o dia inteiro às voltas com aquilo que tu sabes e custa-me a perceber como é que alguém acha interessante publicar umas cenas que fui escrevendo ao longo dos anos, mas que agora, assim de enfiada, me parecem coladas com cuspo
blherc
coladas com cuspo, sim, olha lé se faz sentido voltar a bater outra vez no ceguinho em nome de uns trocos ou coisa que o valha...

Este é especialmente para ti

que vens aqui todos os dias espreitar, não me vá ter dado na gana despejar desabafos no plasma ou lá o que é isto, para dizer a verdade não me sinto lá muito bem aqui dentro, já viste que agora nem sequer posso assinar
Sophia
vá lá saber-se porquê mas aparece-me
Inês
por baixo dos posts, imagina lá tu
Inês
não que não goste do nome, até gosto, conheço duas ou três e nem sequer posso dizer que são más pessoas, não são e tu sabes, mas irrita-me à mesma não poder assinar como quero
Sophia
pouco me interessa se a Sophia é de plasma ou de pele, nunca cheguei a resolver esse dilema, nem quero, pronto, gostaste?

15 dezembro 2006

A seguir

fui almoçar com a minha mãe, ou fazer-lhe companhia, foi mais isso, pois tinha almoçado frango assado na escola - com faca e garfo. Cheguei um bocado atrasada, já estavam todos à mesa, zangados
- Ao menos podias ter avisado
como se fizesse alguma diferença não querer o peixe no forno feito pela Deolinda - não sei porquê chamo-lhe sempre Deolinda - mas é mesmo assim, as pessoas ficam zangadas por razõezinhas de nada e depois qeuixam-se.

Hoje de manhã

levei uma garrafa com néctar das fadas aos meninos da escola. Estavam todos sentados à mesa - 70! - até parecia a cantina da misericórdia, não fossem as mãos e as bocas labuzadas de frango assado e era mesmo, estavam todos sentados à mesa e quando lhes mostrei o cestinho com a carta, o envelope da história e a garrafa com néctar das fadas, arregalaram os olhos. O D. disse logo
- É néctar das fadas!
No cesto, iam também uns copinhos para poderem beber e brindar aos desejos, mas não fiquei lá para ouvir a P. contar-lhes o último capítulo.
Depois das férias, vou ter de inventar mais qualquer coisa. Pensei em ensinar-lhes a língua das fadas, vou ver se encontro um dicionário.

Às vezes

haxo-me e perco-me.
É um vício que tenho há que tempos!

14 dezembro 2006

Estou, então,

na Caparica. Há dias o mar engoliu às golfadas a areia da praia, espreito-o de um promontório de pedras e a paisagem é triste, mais triste ainda por estar com a minha mãe fechada na cadência das ondas, para cá e para lá, para cá e para lá, para cá e para lá
- Não tarda e estou enjoada,
diz ela.
Costumava passar férias na Caparica quando era miúda e hoje arrepiam-me os excessos que tornaram a pequena vila de pescadores numa anormalidade desconcertante de prédios. Chegámos a ter lá uma casa, com um pinheiro manso. Íamos de comboiozinho até à Fonte da Telha, a minha mãe era muito mais magra e muito mais divertida, em vez de nos fecharmos as duas na cadência das ondas, saltávamos para dentro da espuma, ela usava uma touca e nunca molhava os cabelos, apanhávamos algas, conquilhas, escaldões, era bom.
- Eras muito mais querida
diz ela.
Mas nem sequer é essa a questão. Não somos mais queridas só porque somos mais pequeninas ou mais inocentes, o segredo estava na mansidão do pinheiro, na sua copa redonda e frondosa - o ventre da minha mãe sempre foi liso, os braços não davam sombra
- És uma ingrata!
A grande questão é quando nos pômos a dividir: de um lado a mãe, do outro a pessoa, e nos partimos ao meio. Não há Freud que valha! Ali está ela, fechada nas ondas comigo, evocando o ventre de pinheiro manso onde me pôs a crescer e o mar liso como uma pedra. Aqui estou eu, com vontade outra vez de a morder e de a levar para o hospital de malucos.
- Nunca deste importância ao meu sacrifício!
Pois não. É precisamente o que mais me apavora, essa ideia de se ter sacrificado por mim e de agora querer que lhe pague com juros.
- Já chega. Vamos embora.

Se algum dia

tiver filhos, se algum dia tiver uma filha que a certa altura sinta vontade de me morder, também vou fazer um ar desolado. Dizem os especialistas que os padrões se repetem. Assim, é muito provável que, perante o meu desconsolo, também ela se feche comigo na cadência das ondas.

Passei a buscá-la

por volta das sete e meia, mas ainda dormia. Não tive mesmo outro remédio senão ir lá acima, ainda bem que tenho as chaves de casa, abri a porta, entrei de rompante no quarto.
- Mãe, acorde!
Esbugalhou os dois olhos, como se eu fosse uma aparição, um fantasma, um monstro que a queria comer ou, simplesmente, a mais ingrata das filhas.
- Que horas são?
- Um quarto para as oito. Levante-se e vista-se. Temos de estar no hospital antes das nove.
- Qual hospital?
- Não interessa, quando chegar, logo vê.
Puxei-lhe os cobertores para trás e arranquei-a da cama, gemeu.
- Não percebo por que é que me tratas tão mal.
Eu também não, mas ultimamente, mais do que nunca, tenho tido vontade de lhe morder, é mais forte que eu.
- Vá lá, vamos embora.
Em vinte minutos, vestiu-se e descemos as duas, mas via-a com um ar tão desolado que, em vez de me pôr a caminho do hospital, levei-a à Caparica, para vermos o mar.
- Que lindo hospital, disse a minha mãe. Afinal, foste querida.
Fechei-me com ela na cadência das ondas e ficámos as duas a olhar para o azul.

13 dezembro 2006

Hoje voltei

ao hospital de malucos e foi uma festa! Pelos vistos, o Dr. Singelo já lá não trabalha, consta que foi desterrado, e o Miguel levou-me a dar uma volta pelos quartos. Lá estavam elas, tal como as deixei há muitos meses atrás, cada uma com a sua panca e o seu ipê, lembrei-me da Catarina, que já não espreito há que tempos, o que será feito dela?, e da outra, coitada, a dos namoridos e das bonecas. O Miguel jurou-me que estão muito melhores e que até têm feito progressos, mas eu duvido, coitadas, tinham todas um ar tão apático!
A seguir fomos beber um café e contei-lhe que tenho andado em grandes mudanças.
- Ai, sim? Que interessante... E quando é que me mostra o que tem feito?
Expliquei-lhe que não era para já. Que, por enquanto, um trânsito do meu Neptuno progredido ao meu Neptuno natal me puxa para a ilusão.
- Não sabia que se interessava por astrologia
disse ele.
É normal, há montes de coisas que as pessoas não sabem.
- Mas está a pensar publicar, ou não está?
Não gosto muito que se imiscuam na minha vida real, por isso mudei de conversa.
- Olhe lá, por acaso não se arranja aqui um quartinho para a minha mãe, não?
- O quê, piorou?
- Parece que sim. Não diz coisa com coisa, há dias em que não articula um único som, fica parada a olhar para as paredes, engorda cada vez mais.
- Mas que coisa! Talvez possa pô-la no 15.
- O 15 era bom.
- Acha que pode trazê-la amanhã?
- Amanhã? É quinta-feira, não é?
- Sim, amanhã, quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006.
- Muito bem, amanhã cá estaremos.
A seguir fui para casa.

12 dezembro 2006

No fim

todos morrem.
Já tenho título.

No fundo,

tudo o que aqui fui deixando ao longo do tempo foi isso: sementes de nada. Soluços. Curtos ensaios. Fragmentos de prosa. Traços de chumbo por onde alinhava as palavras, na maior parte das vezes para não chegar a lado nenhum.
Mas escrever não é isso.
Só isso não chega para nada.
Se fosse só isso, um blog chegava.
A ilusão de que escrever de rajada é que é bom - como se a inspiração fosse um jacto de luz, como se o dom dispensasse a depuração - é só isso. Uma ilusão de quem alimenta os seus pequenos néons como se fossem o mundo. De quem formata as palavras a quadriláteros, desenrolando a vidinha - essas sim, são vidinhas - entre quatro paredes de senso comum e só isso é tão pouco!

Insiste

que o tempo da colheita há-de chegar finalmente, não era?
Semeia.
Mas nem todos entendem. Nem toda a gente é capaz de arar um ecrã, sobrevivendo às agruras do frio, ao excesso de Verão que condensa em vapor metáforas, frutos, poentes, marés. Há estações em que o chão não dá nada, em que o coração está de pousio num descampado ao abrigo da chuva, há dias em que os olhos se inundam de luz, momentos em que secamos ao sol, mortos de sede e cansaço, nem toda a gente é capaz de arar um ecrã, hão-de convir, a maior parte despeja aqui e ali sementes de nada, mas depois não as rega, não as poda dos excessos, não lhes apara as excrescências, há quem espere que vinguem sozinhas, como se fosse possível crescer sem amparo.

Valeu a pena

ensaiá-las, tomá-las vezes sem conta nos dedos, dispará-las às cegas das teclas do computador para que acertassem no branco, para que encontrassem um rumo muito mais extenso do que os limites rectangulares de um blog ridículo.
Conta-me tudo
De vidro
A substância das letras muito mais condensada, a depuração das palavras
é isso escrever
depurar as palavras das vaidades do ego, cingi-las muito mais do que vertê-las a eito, tomar-lhes o gosto na língua, hoje sabem-me bem, finalmente consigo prová-las sem que o sabor amargue o meu peito, sem ninguém que me espreite. Mais tarde
mais logo
quando forem um livro já não me pertencem, poderão à vontade cair em olhos alheios, noutras mãos, serei eu de verdade e não mais a sophia inventada ou outra qualquer, serei eu, e não elas, seremos todas a mesma, haverá porventura quem me reconheça
tanto me faz
nunca me conformei à vidinha supostamente vazia com que me iniciei por estas paragens, por trás do plasma sou pele, sou de carne, existo muito para além do que escrevo e hoje, finalmente, consigo escrever muito para além da minha existência humana e banal, das histórias comuns de todos os dias, e ainda bem que o consigo, nem sequer por me sentir importante ou melhor do que os outros, mas pelo prazer que me dá ser capaz de o fazer.

Finalmente

o que tanto queria cumpriu-se. As palavras chegaram e jorram, é comovedor assistir à forma como se espalham. Falam da morte, como era suposto, mas também de paisagens e cores, de desejos e fadas, e algumas estão prontas. Não tarda nada e vão aparecer condensadas em livro, valeu a pena esperá-las.

11 outubro 2006

Tenho almoçado

de vez em quando com o escanzelado de merda. Coitado!, continua tão magro de ideias que chego a afligir-me. Não é por ele, é por mim, que andei anos e anos a achá-lo o maior, apesar de nunca ter tido mais de um metro e sessenta, o que para homem é pouco, por mim que passei metade da vida a sonhar dar-lhe beijos na boca e a achar que ele era assim uma espécie de cara metade, ou de alma gémea, acho que era mais isso, alma gémea, e agora, quando almoço com ele, raramente, oiço-o a ruminar coisinhas de nada naquele cérebro de caca e só penso que ainda bem que me passou. Afinal, também foi por ele que comecei a escrever este blog, na altura muito mais divertido, é verdade, mas pronto, aqui fica a prova de como se pode passar frases e frases sem dizer nada. Fazia-me falta este ócio, caraças!

A coisa mais difícil de aturar?

As birras INFINDÁVEIS dela.

Não dá

para acreditar nesta anormal!

1 comment

anonymous said...
já cá faltava!

Mesmo que

o nonsense tenha estado na origem deste blog, nunca pensei voltar a ele!
lá estás tu a fazer bluf, ó minha parva!
(e se estivesse?)

E, tu, Gonçalo?

eu?
sim, tu!
mas eu o quê, sophia?
sei lá o quê! tens cada uma!...
'dasse! já não se pode dizer nada!

Mããããeeeee!

- Filhaaaaa!...
- Por aqui?
- Pelos vistos.
- Muito bem, gosto de a ver.
- Pois eu gostava muito mais se me deixasses em paz. Tu não vês que eu não me sinto nada bem?
- Ah! Isso passa-lhe, vai ver.
- Não passa, não.
- Passa, passa...
- Não passa, não!
- Passa, sim!
- Não passa! Já te disse que não passa! Olha para mim: não vês que estou cada vez pior?
- Por acaso, não tenho nada essa impressão!...
- Isso é porque és uma insensível!
- Eu? Uma insensível? Oh mãe, isso até lhe fica mal!
- Uma insensível, sim senhora! Não vês que eu quase não me mexo?
- Mas isso é porque está gorda!
- Mau, mau... Agora estás a ser mal educada!
- Desculpe lá, só estou a querer ajudá-la! Aposto que anda outra vez a comer chocolates às escondidas. Diga lá, anda ou não anda?
- E se andar? O que é que tens a ver com isso?
- Eu? Nada, de facto! Aliás, nem sei para quê esta conversa...
- E quem é que há-de saber? Irra que às vezes és mesmo parva!

07 outubro 2006

Azul clarinho

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Sento-me à espera,

talvez hoje venham visitar-me, abro a janela. Nunca sei a hora certa em que irão subir-me ao peito, depois ao cérebro, à boca, às mãos, ao corpo inteiro que levo à letra e que derramo em lençol branco. Nunca sei se vêm certas, pertinentes, necessárias, se se articulam com o que sinto ou se é aleatória a forma como se atiram, se me procuram ou se tenho de encontrá-las, uma a uma, num mar de léxico infinito. A verdade é que não vivo sem elas e que passo o tempo à espera que me cruzem a janela para as poder jorrar dos dedos, pequeníssimos soluços de cor negra eclodindo aos solavancos, pequeníssimos rumores que ponho em fila um após outro a tentar que o horizonte não se esgote na parede azul da sala, pequenos nadas, afinal, que dependem de uma ordem para dizerem qualquer coisa.
Sento-me à espera da escrita. Acredito que regresse, se não hoje um destes dias, ao meu corpo, às minhas mãos, à minha boca.

06 outubro 2006

É estranho

estar de novo aqui. Como se, de alguma forma, já não pudesse pertencer a nada disto.

Não as vou buscar

a ti, as palavras, nem mesmo as que parecem terem sido em tua honra, não existe essa empatia entre nós dois. Falo em nós, depois reparo que só eu própria estou presente na palavra
nós o quê?
que não há dois pares de mãos, um corpo sobreposto ao outro, uma conversa a duas vozes, nada a dobrar para além do horizonte.

É claro

que mentes, como sempre.

Volto

sem máscaras e sem plasma, a pele à vista de quem passa, a carne à mostra. Talvez porque tenham vindo à tona os gestos que afinal procuro e que não são, já não são, poses de espelho. Já não temo pelo reflexo das palavras que projecto no néon. São o que são, são como são, não temo o eco, as distorções, as várias vozes que me habitam, deixo-as estar. Não temo o vácuo e não me sinto perseguida pelo sentido que preciso de fazer: posso não fazer nenhum, escrever à mesma, ser quem quiser, o que quiser, alheia aos outros e a mim própria, presente ou não naquilo que digo, é disso mesmo que se trata, como sempre, de exercício. Porque, se páro, os dedos queixam-se e eu não gosto que se queixem, dói-me o peito e é escusado. O resto é pouco, é-me indiferente. Da mesma forma, o que aqui fica não é para a posteridade, vale o que vale, e assim já chega: justifica-se o regresso.

04 julho 2006

Não te faço rir,

eu sei, há muito tempo que perdi a expressão alargada do meu rosto, e hoje limito-me a viver dos poucos traços que ainda guardo. Pequenos esgares que nem sequer são de alegria, olhos em arco, as faces pálidas caídas, a solidão que em frente ao espelho me incomoda. E, no entanto, sou a mesma. Sempre a mesma. Procuro-me em outras, mas não passa de ilusão. Sou sempre a mesma. A mesma pele que me serve serve às outras. Nenhuma de nós é plasma, temos nome, o mesmo nome para todas. Da substância, porém, não sei dizer. Não somos todas da mesma.

Desde que vi

a cara dela numa revista duvidosa que a sua escrita deixou de ter aquele impacto. Hoje, considero-a até banal, sem importância, uma escrita construída de rajada, mas nem por isso genuína.
Há muito tempo que não mostro a minha cara
duvidosa?
na revista. E, no entanto, a minha escrita já não tem aquele impacto. Considero-a até banal, sem importância, construída sobre a ânsia de dizer, e afinal amordaçada.

É claro

que ainda posso permanecer. Mudar de ideias, fazer-te rir. Boiar outra vez no néon, outra vez ser de plasma resguardando a pele em corpo seguro, estatelar-me no écran ao comprido, deitar-me, dormir, escrever sem pensar, inventar personagens que depois posso enfiar outra vez num hospital de malucos, convidar o Miguel Bombarda para beber um copo de letras comigo, sair com o Gonçalo, telefonar à Joana. Passo depressas pelas estações, mas posso fazê-las durar nos meus dedos para que se derramem nas teclas as vezes que forem precisas. Ou, simplesmente, as que me apetecer. E a ti? Depois disto tudo, continua a apetecer-te a leveza e o riso? Se quiseres, posso escrever.

Qualquer coisa

mas leve. Das que te fazem rir, foi o que disseste? Sabes, não sei se ainda sei escrever coisas dessas, ou sequer se me apetece escrever coisas dessas, coisas que te façam rir, que te deixem leve ou com vontade de ler-me. Passou tanto tempo, sobretudo mudou tanta coisa, e tu sabes como sou rápida a atravessar as estações, como passo a correr de umas para as outras, como me canso sempre que me demoro mais do que a conta, aborrecem-me as repetições, as reposições, o resgatar das palavras que já foram escritas. Além disso, cada vez me convenço mais de que os blogs
estás muito enganada, isto não é um blog!
cada vez me convenço mais de que os blogs mais não são do que espelhos onde queremos que os outros nos vejam maiores do que somos, onde espetamos com as nossas vaidades e onde pômos o ego a boiar em néon para que os outros nos venham «espiar» e, idealmente, admirar, bajular, encher-nos as caixas de comentários com senso comum e considerações miseráveis. Pois foi, é verdade, também eu caí nessa asneira, também eu cedi à tentação de pôr a escrita a boiar no néon, tipo isca, tipo deixa lá ver quem é que aparece e o que é que diz, pode ser que haja para aí alguém interessante, alguém para quem as palavras façam mais do que só o sentido que lhes quero dar, uma espécie de eco, ou de retorno, talvez até fosse mais o retorno aquilo que esperava, mas que disparate, como se as presenças do lado de lá me garantissem alguma coisa, como se fosse preciso andar a medir o impacto das minhas metáforas pela bitola dos outros.
Sim, divertia-me, durante uns meses divertia-me à brava, sobretudo à custa de uma ou outra ressabiada, isso foi giro, medir até que ponto o néon se presta ao verter de azedumes, de invejas, de raivas, mas tudo isso, ultimamente, foi ficando para trás. A minha vidinha, o escanzelado de merda, os comentários anónimos, o palhaço singelo, o plasma e a pele, a minha mãe... Não digo que estejam mortos e enterrados, mas olho para eles e vejo-os tão pálidos, os contornos do que quis que fossem esvaídos, nenhuma coisa que me pareça importante ir recuperar. Desculpa, por isso, se não te faço rir, se são de vidro - e de outras substâncias anónimas - as palavras que tenho guardadas dentro de mim. E que já não partilho.

Escreve aí qualquer coisa

mas leve, do género daquelas que costumavas escrever quando este blog
isto não é um blog!
nos fazia rir.

04 maio 2006

Ao ritmo a que se sucedem

os dias deixam de fazer sentido: não os uso, não os gasto, não os vivo.

03 maio 2006

Fomos ganhando a distância

dos corpos primeiro, cada um a cada dia mais longe do outro, abrindo os braços, as mãos e os olhos na direcção oposta do outro, procurando o lugar onde o outro não estava, onde não podia chegar ou voltar a caber, onde o tamanho de dois se tornava risível e cada vez mais desproporcional ao amor. Uma vez estabelecidos os territórios da pele e as respectivas fronteiras, alargámos o intervalo entre as almas até ao abismo que vês. Agora, para me tocares ou, simplesmente, para me quereres outra vez, tens de atirar-te e cair. Provavelmente, morrer.

A seguir

morro-te eu. Devagarinho, prometo. Quando acabar, guardo-te perto dos búzios - a não ser que me digas que preferes os lírios de cera, as orquídeas, as coroas de cemitério ou outro disparate qualquer das mortes a sério.

Morre-me

devagarinho. Assim todos os dias te posso amar menos.

Insiste

que o tempo da colheita há-de chegar finalmente. Repara como o verão se aproxima, sente-lhe a arte, se fores capaz toma-lhe o pulso, segura-o. Pouco importa se são frutos ou almas o que vais trazer do pomar, se é voz se silêncio o que te nasce no peito, doendo. Sobretudo, não contes as ilusões que te distraem desde o outono passado. Enquanto não davas por isso, as estações amadureceram -te e envelheceste . Não é motivo para alarme, não são as rugas que te vão tolher os dedos para já, mas estamos em Maio e urge usá-los antes que caiam das árvores - ou que apodreças.

A voz dele

não devoluta, sem ser rouca e sem estar presa, nenhum arquétipo de som desabando atrás do vento, nenhum pranto de vertigem, nenhum grito de vazante, nenhum halo de precipício, nenhum trago de maré, nenhum espasmo de veneno. A voz dele no timbre manso e eterno das estações que o amor devolve em dobro aos heróis das grandes causas, a viola recuperada, o piano recomposto, os olhos verdes pela frincha entreaberta das palavras que ficaram por reter e as flores já recuperadas, afinal não tinham sede, não chegaram a murchar, eram brancas, eram doces e a voz dele
até que a morte nos separe
repetindo a promessa e o amor para além do tempo e da tragédia.

Que diferença faz

afinal? Que sentido? Aberta ou fechada, a minha janela dá para um imenso vazio, nenhuma paisagem à frente dos olhos que valha a pena reter, considerar, repetir.

28 abril 2006

Era muito mais divertido

quando ficava à janela a ver-te passar, ou mesmo quando ficava do lado de dentro, ao teu lado, e te seguia à medida que ias jorrando dos dedos os teus disparates, alguns faziam-me rir, outros nem tanto, mas sempre era melhor do que agora, eu ao teu lado e tu quieta, muito mais quieta, muito mais triste, eu do lado de dentro das tuas mãos e a vê-las tremer, desistir. Ou então à janela. Eu amparando o teu corpo dobrado, as portadas fechadas, a rua onde já não passa ninguém, talvez me morras nos braços um destes dias e tenha de ir enterrar-te junto dos pássaros, lembras-te? Talvez um destes dias te agarre nas mãos e repare que já não sabem voar. Poderei nessa altura passar outra vez para o teu lado de dentro e de novo abrir a janela, quem sabe sorrir, ver passar as pessoas, as letras, um rumor de palavras calcorreando os passeios e a memória da tua voz seguindo-lhe o rasto, ou não fosse a morte a metáfora perfeita dos dias que ainda nos faltam cumprir.

Como se recomeçar

fosse voltar ao princípio e não é. Como se a escrita fosse tangível daqui e eu debruçada a vê-la cair sem poder fazer nada ou mexer-me. Eu entre a inércia e o espanto a medir o abismo que de há uns anos para cá me separou das palavras
para sempre
entre o tédio e o pranto a ajuizar a distância da pele à metáfora e é grande, é imensa, é brutal e estou tão cansada. Eu a ser empurrada e a reparar que é por isso, é só por isso, que me mantenho em andamento embora não saiba lá muito bem para onde vou nem porquê e uma pilha de livros à espera que os meus dedos se excedam e escrevam, enfim, o que lhes peço. Mas nunca escrevem, nunca se excedem, há anos que os tenho parados nas mãos, já quase não fazem parte de nada, os meus dedos, e às vezes ficam dormentes. Como se recomeçar fosse, de alguma forma, o sol de vermelho no limbo, o horizonte e a luz e o mundo contagiados de sangue e não é, nunca foi. Não é suposto doer e parece que é disso que não me convenço, não é suposto doer. Não é o sangue que vejo nascer todos os dias da minha janela, pois não.

Sophia

tantos meses depois e ainda me viro quando alguém diz o meu nome
Sophia?
ou quando o escrevo
Sophia
como se fosse de facto o meu nome, e não é.

Num dia como outro qualquer

de calor, mas muitos anos depois
não exageres, foram só alguns meses
meses, ok, num dia como outro qualquer de calor mas muitos meses depois, quantos não sei, não os conto, prefiro não contar o tempo que não posso reter, revejo-me ao espelho. É o mesmo rectângulo, é o mesmo néon, o ecrã tal e qual como o deixei há meses atrás, pálido, o mesmo template,
ia dizer : a mesma merda de sempre
mas ainda não decidi se me quero ver tal e qual como sou
a mesma de sempre
ou se em vez disso me invento,
outra vez
se me mostro ou me escondo atrás da pele que não tenho,
plasma, não era
se me deixo levar pelo chumbo das letras, pelo barulho dos tiros a sair-me a custo dos dedos
das teclas
pelo barulho das teclas a sair-me às golfadas do peito ou se, em vez disso, me deito quieta e à sombra à hora da sesta ou, ainda, se sonho.
Por enquanto
e é tudo
e é muito, sei que num dia como outro qualquer de calor me acendo à espera que a escrita me traga o alento que não encontro na vida e é tudo
e é muito
até porque já se passou muito tempo e há coisas de que já não me lembro, coisas que preferia esquecer, muitas coisas das quais ando desesperadamente à procura para depois lhes poder chamar nomes, acho que deve ser isso.